20

Jan

Contos de Maya – O Antagonista

Todas as manhãs ela apreciava um pequeno feixe de luz que surgia no corredor.

Tinha lá suas poucas horas de contemplação e a oportunidade de pensar: “o que você fez com sua vida? Como chegou aqui?”

Sim, apesar de ainda estar viva, sentia-se dormente para a vida. Sequer lembrava de qualquer coisa de seu passado.

Permanecia ali em seu estado contemplativo, da mesma forma, todos os dias, até a hora em que ouvia passos.

Somente o som dos tais passos era o suficiente para que ela se encolhesse no cantinho da sala, com o rosto virado para a parede, paralisada de medo.

Jamais ousou olhar para saber de quem seriam os passos.

Alguém então abria a “cela” e deixava a alimentação, que estranhamente era um verdadeiro banquete.

Demorava muito tempo até ter coragem de sair daquele lugar.

Antes, permanecia encolhida chorando e lamentando.

Lamentava-se, lamentava-se, levantava-se, alimentava-se.

Encolhia-se, lamentava-se, lamentava-se, levantava-se, alimentava-se.

Um ciclo sem fim!

Anos se passaram e um dia nem o sol e nem o “carcereiro” apareceram…

Ousou levantar-se e olhar para algo bem na sua frente.

Algo que nunca tinha visto: as grades da cela.

Descobriu que não havia fechadura ou qualquer cadeado.

Descobriu mais: a cela nunca havia sido trancada e o carcereiro, na verdade, era apenas alguém que lhe mantinha viva.

Descobriu também que podia ir embora! Mas não o fez.

Pensou que se o fizesse, teria que prover e manter a sua própria existência.

Imóvel, encolhida, lamentando-se permaneceu ali.

Dias depois… ouvia passos novamente!

 

MAYA, M. H.

Contos de Maya – Escrito em 08/01/2018

 

18

Jan

Tudo alagado de novo…

São muitas as causas apontadas para os alagamentos que ocorrem nas cidades em dias de chuva: uns dizem que é “falta de infraestrutura”… outros preferem culpar aquele papelzinho de bombom que você jogou “sem querer” na rua.

É fato que ainda são insuficientes as galerias de drenagem de águas pluviais nas cidades, bem como, podemos inferir que os 30g de resíduos que caem “sem querer” na calçada, multiplicados pelo número de habitantes, geram algumas boas toneladas de resíduos que fatalmente irão entupir as galerias, porém, a causa principal disso tudo, está para muito além desses fatos.

Posso afirmar sem ressalvas, que o histórico processo de planejamento urbano das cidades sem a efetiva incorporação do conhecimento sobre o meio ambiente tem permitido uma indiscriminada substituição dos entes naturais (solo, rios, riachos, lagoas, vegetação, etc) por ambientes artificializados, com base no argumento do “direito à cidade”, do “direito à moradia” e do desenvolvimento.

Sim, sabemos que existem estes direitos, e sim, também concordamos com o desenvolvimento. Porém, ao realizar um “planejamento urbano” sem (re)conhecer o sistemismo da natureza, tem-se como consequência a perda de outros direitos, tais como: o direito a um meio ambiente saudável e equilibrado, dentre outros.

Para entender melhor, é preciso obter algumas noções fundamentais sobre o meio ambiente:

1. Antes de existir a cidade, o território já existia contendo em seu interior os entes naturais já citados;

2. A estrutura hídrica dos territórios é interligada e sistêmica, de modo que qualquer alteração em um ponto X trará consequências diretas (alagamentos) num ponto Y à jusante, e num ponto Z à montante, e num outro ponto W à jusante, e assim sucessivamente;

3. A natureza é resiliente e com alta capacidade de adaptação e, por mais que seus “caminhos naturais” sejam alterados por nós, ela sempre buscará um meio de retomar seu curso natural;

4. Os entes naturais no ambiente urbano nos prestam “serviços ecossistêmicos”, o que seria equivalente à função ecológica desempenhada em condição natural.

Dito isso, fica mais fácil compreender o real motivo de nossas cidades ficarem alagadas em dias de chuva, senão vejamos:

Para edificar casas e empreendimentos, bem como, para construir vias de acesso a essas edificações, realizamos alterações abruptas na natureza tais como: nivelamento de terreno; impermeabilização do solo; rebaixamento de lençol freático; canalização de rios; aterramento de lagoas; […] isso só mencionando o básico.

Ao realizar tais ações estamos alterando toda uma cadeia natural sistêmica, perdendo os serviços ecossistêmicos e produzindo problemas e prejuízos para nós mesmos.

A avenida por onde o seu carro não passa no dia de chuva, certamente outrora pode ter sido um rio ou um riacho afluente. Na cidade de Fortaleza esse é um exemplo clássico. Temos a Avenida Heráclito Graça (Foto da capa) que sempre fica intransitável em dia de chuva por conta do nível de água acumulado. Quem conhece a estrutura natural da cidade, sabe que ali em tempos pretéritos, corria o Riacho Pajeú (principal riacho histórico da cidade). Conforme já mencionado, a natureza sempre tenta retomar o seu curso natural. Logo…

Outras perdas de serviços ecossistêmicos também contribuem para os alagamentos: abaixo do asfalto dessas ruas e avenidas, existe um solo confinado, o qual outrora permitia que a água da chuva percolasse (infiltrasse) diminuindo assim os níveis de alagamento. As árvores arrancadas para permitir a construção dessas vias, teriam a capacidade de amortecer milhares de litros de água da chuva. Agora pense em todo esse contexto, ocorrendo repetidas vezes em todo o território.

Você então poderia me perguntar: não poderíamos ter construído as cidades? Não poderíamos ter construído vias?

Eu lhe respondo: claro que poderíamos e podemos!!! Porém, com o devido respeito aos limites da natureza e com o aproveitamento dos serviços ecossistêmicos devidamente incorporados no planejamento urbano desde sempre.

Mas isso… somente teria sido possível se as equipes de planejamento tivessem sido desde sempre multidisciplinares, envolvendo biólogos, geógrafos, urbanistas, engenheiros, e muitas outras especialidades. Porque absolutamente nenhuma ciência e nenhuma profissão é capaz de sozinha deter todo o conhecimento necessário para planejar e desenvolver uma cidade.

Nesse caso, as vias não seriam todas necessariamente asfaltadas, assim como alguém teria demonstrado tecnicamente os efeitos sistêmicos das canalizações, aterramentos e desvios de cursos d’água. Alguém também poderia ter informado sobre a importância de manter a biodiversidade representada pela vegetação e pela fauna, bem como demonstrado o tamanho da perda em serviços ecossistêmicos e o impacto econômico de tais decisões equivocadas.

Então a partir de agora se você ouvir alguém perguntando: “porque não pode dar uma chuvinha que já fica tudo alagado?” lembre-se de dizer que a culpa é da falta de infraestrutura e do papel de bombom… mas também lembre-se de dizer que a causa é a histórica ausência de planejamento urbano multidisciplinar e a falta de compreensão do QUE É e do quão grande é o valor da natureza!!!

Texto originalmente publicado em: https://www.linkedin.com/pulse/porque-minha-cidade-alaga-quando-chove-magda-helena-maia

Foto: Deivyson Teixeira

15

Jan

Oficina

O Porto Iracema das Artes está com inscrições abertas até 18 de janeiro para a oficina “Fábulas de Janeiro II – Literatura Liberdade”, com o escritor Joca Reiners Terron, abrindo a temporada de atividades formativas da escola em 2018.

Com carga horária de 15 h/a, a oficina, totalmente gratuita, vai debater a liberdade da escrita literária, refletir sobre a noção de “restrição” e fornecer novas estruturas para incentivar a criação.

Para inscrições e mais informações, acesse: http://www.portoiracemadasartes.org.br/porto-iracema-das-artes-abre-inscricoes-para-oficina-de-criacao-literaria-com-joca-terron/

12

Jan

Blogueirisses e muito mais…

Muito (mas muito mesmo) antes de “blogs” virarem modinha eu já era blogueira (e escritora)!!!

A escrita sempre fez parte da minha vida!!! Mesmo quando não havia computador, nem blog… Eu escrevia em cadernos e agendas!!!

Hoje tenho este blog sobre Ambientalismo (+ arte e feminismo) no jornal O Estado mas essa história não começa aqui!

Meu primeiro blog se chamou NIX e ele existiu de 2003 até 2008!!! O tema era “goticismo, ocultismo e demais banalidades”.

Sim… Sempre fui atraída pelo que não está dito… O que não está posto… O que não é mais do mesmo… O que não se encaixa! Sempre amei a subjetividade!

Esse blog era tão lido, lindo e bem escrito que virou tema da dissertação de uma mestranda da UNIFOR cujo nome não me recordo. Infelizmente por falta de uso foi tirado do ar pelo provedor em 2015. (Como eu queria vê-lo novamente)

Depois veio um blog sobre minha experiência com a cirurgia bariátrica que fiz em 2008. Em 1 ano e meio passei de 136kg para 82kg e nesse blog relatei toda essa loucura. Também era muito lido!!! Mas foi tirado do ar em 2015 por falta de acesso.

Também tive um blog sobre geografia… E minhas viagens! E outro sobre “moda” (só que era uma sátira). Ambos tirados do ar por falta de uso!

Enfim… Passei a vida inteira escrevendo e me perdendo em páginas escritas e recortadas de mim mesma!!!

Sou e sempre fui uma escritora!!! Mas nunca levei nada disso a sério e nem para frente!

No período do Mestrado e Doutorado tive que parar com toda essa escrita frouxa e espontânea. Me tornei A acadêmica!!!

Via muitos amigos às voltas com seus artigos, dissertações e teses enquanto eu “tirava de letra”. Afinal… A escrita sempre esteve comigo!

Contudo… Quando se tratava de “publicar” o bicho pegava.

Sempre odiei ser julgada, avaliada. Não sei se por arrogância ou insegurança. Quem sabe ambos. Afinal somos complexos, não é mesmo?

Seja como for, se a gente não se cuida, a Academia faz isso com a gente. Nos tira o brilho, a luz e a leveza! Boa parte dos professores só quer saber de ofuscar sua luz para que a deles não fique menor.

Agora imagina eu (uma fedelha) chegando com pensamentos complexos baseados em Edgar Morin!

Fui massacrada e tolhida no Mestrado da UECE. Já no Doutorado da UFC consegui seguir em frente… mas isso graças ao professor Milton,  um Ser muito especial que mora na Bahia a quem serei sempre grata!

Terminei o Doutorado, mas não perdi o ranço da escrita dura, “desumanizada”, técnica, erudita, tensa e CHATA!!!

Criei então o blog Maya Ambiental (que durante um tempo não fez parte do Jornal), com conteúdo ambiental, mas nele estava aparecendo somente “a profissional” e “a acadêmica”. E eu não sou apenas isso… não mesmo!

Foi então que resolvi buscar as Oficinas de Escrita Terapêutica da Central de Escritores (com a mulher maravilhosa que é Rose Lira) e como já disse uma vez, lá eu resgatei a escrita humanizada e mais ainda… entendi a importância e o significado de cada palavra colocada no mundo por mim.

Durante toda a minha vida, em cada uma daquelas silabas estava eu!!! Partes de mim!!! Pensamentos meus!!!

Hoje a escrita tem me conduzido num caminho de autoconhecimento e revelado todos os dias a mulher complexa que sou! Sou sim a profissional, a Doutora… mas também sou a artista, a escritora, a ambientalista, a professora e demais facetas que apresento ao mundo.

Para além disso, sou ainda muito mais… sou aquilo que somente os íntimos (marido, familiares e amigos) sabem e poderão algum dia saber!

Quanto mais me revelo, mais presente estou nos meus escritos. Quanto mais presente estou, mas chego perto de você.

E se você me perguntar, porque escrevi tudo isso, minha resposta será:

Porque escrever é algo que eu faço!

Porque sou escritora!

09

Jan

O chamado…

Ok! Confesso!!!

Nessa história toda de “balanço de fim de ano” eu estava ainda um pouco sonolenta até agora.

Além de estar sonolenta (ou seria com preguiça de enfrentar a realidade?), eu bem que pretendia ser uma pessoa menos combativa/ativista/incisiva/visceral ou qualquer coisa do tipo nesse ano de 2018… mas então começam a chegar “os chamados”. [Sim… inclusive com direito a trocadilho com o filme de terror mesmo!]

Os tais chamados sempre chegam por um e-mail daqui, por um messenger de lá, por um instagram de cá…

Invariavelmente  enviados por pessoas muito especiais: amigos, companheiros de trabalho, ambientalistas… gente do bem!

Essas pequenas mensagens falam sobre o que andam fazendo por aí (e por aqui) com nossa Mãe Natureza. Raramente as notícias são boas.

Ao ler tais mensagens, me ocorre um misto de felicidade e angústia: felicidade em ver que cada vez mais pessoas se importam e se incomodam com a degradação ambiental e desvalorização da vida; e angústia por um certo grau de perplexidade diante da insistência nos argumentos economicistas, racionais(?), lógicos(?) e matemáticos que AINDA comandam as decisões e as gestões em muitas partes do planeta (inclusive em Fortaleza e no Ceará…).

Trocando em miúdos, estou falando do tal “desenvolvimento econômico a qualquer custo”!

(Sim! “Eles continuam pensando com a Cabeça do Camundongo” – Leia o artigo sobre o assunto clicando aqui)

E é aí onde mora “o terror”!

Terror representado pelas ações pautadas nos interesses econômicos de poucos.

Terror que faço questão de compartilhar com a devida autorização dos amigos cujos nomes prefiro preservar!

 

Num primeiro caso, estou quieta no meu canto quando “plim” uma mensagem no facebook com o seguinte teor:

Olá
Pense num movimento para salvar a Serra (da Ibiapaba)
Vai virar deserto
Mata Atlântica
Estão acabando com tudo
Fauna e flora
2050 já vai estar deserto
O Clima já mudou
 Logo em seguida (coisa de 40 minutos depois) chega o e-mail de um outro amigo mencionando “um jogo da velha” (mas poderia ser Jogos Vorazes) desenhado sobre a foto de um mapa de Fortaleza demonstrando todas as lagoas antes existentes e que foram aterradas para dar lugar ao crescimento, ao progresso e ao desenvolvimento econômico “a qualquer custo”. (Lembrando que o custo ambiental e social somos nós que pagamos!)
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Veja no mapa: onde tem X foram lagoas aterradas
[Fonte: Acervo do DNOCS com manipulação)]
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Eu até poderia citar outras situações mas hoje, 09 de janeiro de 2018, foram essas especialmente que me fizeram sair do estado de sonolência e partir pra ação!
Isso mesmo AÇÃO INDIVIDUAL em favor da coletividade!!!

 

Lógica completamente avessa a esse “mercado” que só sabe pensar com a cabeça do camundongo e atender aos interesses de um ou outro indivíduo em detrimento da coletividade!

E por falar em mercado… quem é esse cara mesmo? Porque é ele que tem que reger nossas vidas?

Quando finalmente teremos planejamentos e gestões pautadas no pertencimento, na igualdade, nas subjetividades humanas, no valor da vida e na FELICIDADE?

Precisamos de disrupção!

Não me venham com “grandes projetos e empreendimentos” que só servem para enfatizar a desigualdade e a infelicidade generalizada!

 

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Post dedicado aos amigos queridos que sempre me mandam mensagens que me mantém desperta!

Agradecimento especial ao meu mais novo amigo que gentilmente autorizou a publicação da imagem do mapa!

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Dica da Maya:

O Siara na Rota Dos Neerlandeses

http://www.bookess.com/read/14473-o-siara-na-rota-dos-neerlandeses/