01

Fev

Lama, indignação e náusea

Não! Esse não é um texto técnico.

Poderia ser, mas não é!

Há dias penso em escrever sobre a tragédia ocorrida em Brumadinho com patrocínio da Vale mas até então só a indignação típica da minha pessoa não tinha sido suficiente para me trazer aqui.

Mas hoje enquanto assistia TV me deparei com um vídeo que mostra o exato momento em que a lama de rejeitos da Vale atinge as próprias instalações da empresa,  e onde se pode ver claramente pessoas em seus carros em completo desespero tentando encontrar uma rota de fuga (bloqueadas pelo imenso infortúnio de estar passando um trem no instante em que a lama chegou).

(Link do vídeo disponível ao final do texto)

O mencionado vídeo me causou NÁUSEAS!!!

Mas não foi somente por uma questão de empatia com as PESSOAS que foram engolidas pela lama, ou por indignação por se tratar da segunda tragédia do mesmo tipo nesse país em um curto espaço de tempo.

Na verdade, a tal náusea me veio à tona junto com tudo aquilo que SEI que existe por trás dessa tragédia e de muitas outras que, infelizmente, estão por acontecer uma vez que não se trata de um problema pontual.

O RISCO à que estamos TODOS submetidos é SISTÊMICO, ou seja, faz parte de um sistema perverso onde os mais diversos atores sabem a verdade mas fazem um PACTO de silêncio para garantir o próximo contrato, o emprego, o cargo, ou seja lá o que estiver em jogo.

Para quem não sabia até então, a tragédia de Brumadinho é apenas o resultado de um sistema composto por:

  • Grupos empresariais que pressionam órgãos do Governo a “flexibilizar” e “simplificar” leis ambientais;

  • Gestores ambientais indicados politicamente, e que CONSTRANGEM E ASSEDIAM fiscais e analistas ambientais sérios a voltarem atrás em seus pareceres;

  • Órgãos ambientais com alguns técnicos que se restringem a analisar apenas IMPACTOS AMBIENTAIS e não os RISCOS associados;

  • Parte dos consultores ambientais que cobram milhares de reais por estudos que DIZEM O QUE O CONTRATANTE quer que seja dito;

  • Um punhado de fiscais ambientais corruptos, que não apenas fecham os olhos para erros das empresas como também contribuem para que os empresários busquem os CAMINHOS MAIS FÁCEIS DE RESOLVER os problemas;

  • Instituições ambientais divididas entre pessoas sérias e competentes e grupos que querem “tirar um por fora”;

  • Muitos técnicos ambientais que no lugar de analisar as questões de RISCO E IMPACTO do ponto de vista TÉCNICO, se restringem a analisar empreendimentos com base apenas nas LEIS (o que deveria ser competência apenas do setor jurídico);

  • Dois pesos e duas medidas nos processos de licenciamento: de um lado pequenas empresas e com baixo potencial poluidor tendo que cumprir milhões de exigências, e de outro ENORMES EMPRESAS que ganham facilidades e flexibilizações (exemplos: mineração considerada de Utilidade Pública com simplificação do licenciamento; ausência de legislação/norma técnica específica sobre barragens; Setor de energia mesmo tendo imensas barragens hidroelétricas fazendo apenas Relatórios Ambientais Simplificados, etc);

  • MÁ FÉ por parte de instituições que FORÇAM empresários a se licenciarem em mais de um órgão ambiental, quando existe uma lei que diz claramente que um empreendimento dever ser licenciado por um único órgão;

  • Competição entre as esferas por consideram o licenciamento um “filé mignon” para tirar dinheiro do setor produtivo com multas e taxas infinitas;

  • Dentre muitos outros fatores

O resultado disso é uma DEMONIZAÇÃO ou ANTIPATIA GENERALIZADA  por parte do setor produtivo quanto as questões AMBIENTAIS e consequentemente a tentativa de burlar as leis a qualquer custo.

Observem que tomei o cuidado de não generalizar nos itens acima pontuados, porque nem todos os que estão no circuito das autorizações ambientais fazem parte desse sistema perverso, muito pelo contrário, muitos são engolidos por ele tal qual a lama fez com as pessoas em Brumadinho.

No meio de todo esse lamaçal que se estabeleceu no sistema de GESTÃO AMBIENTAL brasileiro fica difícil apontar um único culpado, mas em compensação temos um grande número de cúmplices, sejam eles os agentes das improbidades, irregularidades e corrupções, sejam eles apenas os negligentes, os que cruzam os braços, ou os que se calam e deixam a lama escorrer.

Já as vítimas somos todos nós que pagamos se não com a própria vida, com a péssima qualidade ambiental em nossas cidades; com alimentos contaminados por agrotóxicos; com riscos gritantes aos impactos  das mudanças climáticas; com águas poluídas e com muito mais coisas negativas que só o ECONOMICAMENTE VIÁVEL tem “feito por nós”.

Sobre isso, quero concluir dizendo que DESENVOLVIMENTO sustentável é aquele que se pauta em três pilares: ECONOMICAMENTE VIÁVEL + ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO + SOCIALMENTE JUSTO

Logo…

Justificar toda e qualquer intervenção ambiental e social (lembrem-se da remoção de pessoas para construção de barragens ou outros empreendimentos) com o aumento do PIB, da renda e com geração de empregos não dá mais!!!!

Precisamos de economistas que saibam pensar em NATUREZA e em GENTE antes de pensar no “lucro é que VALE”.

Precisamos de profissionais de todas as áreas que recuperem o significado de ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL E AMBIENTAL.

Precisamos criar uma cultura de SUSTENTABILIDADE (e não apenas a ambiental).

Precisamos de mais gente capaz de sentir na boca do estômago essa sensação de  NÁUSEA!!!

 

Magda Maya

 

Link do vídeo: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/02/01/video-mostra-momento-do-rompimento-da-barragem-em-brumadinho.ghtml

 

 

 

 

 

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