08

Mar

Os 4Rs da Sustentabilidade 4.0

Dando continuidade ao artigo anterior onde falo sobre a origem do conceito em si, hoje quero falar sobre os 4Rs da Sustentabilidade 4.0.

Se concordamos que estamos tratando desde o início da construção de um novo mindset (ou no bom português, uma nova mentalidade) sobre a Sustentabilidade como um todo, devemos estar de acordo também que a evolução e a revolução estão na forma de ENXERGAR a realidade e de PENSAR sobre tudo o que está posto e engessado historicamente.

Arrisco dizer que para ser 4.0 é necessário ter a capacidade de REPENSAR tudo!

Para que possamos dar os primeiros passos na direção de uma nova mentalidade sobre a Sustentabilidade, julgo importante entender que existem pelo menos 4 elementos cujos propósitos, objetivos e/ou condutas deverão ser repensados.

São eles: as Pessoas; as Empresas; o Estado (instituições públicas); e as Leis (ordenamento jurídico).

Para ilustrar de uma forma um pouco mais simplificada, criei os 4Rs da Sustentabilidade 4.0 onde faço as seguintes sugestões:

 

  • RECONEXÃO PESSOAL com a VIDA e com a NATUREZA! Sim, todas as pessoas!

Considerando que em um dado momento da história da humanidade “nos perdemos” de nossa essência e passamos a considerar a natureza como um mero produto (ou recurso natural), sobre o qual temos domínio e que está à nossa disposição para ser usado de qualquer jeito, é chegado o momento de nos reconectarmos com a vida em todas as suas formas e repensar nossas escolhas e ações cotidianas, lembrando que somos dependentes dessa natureza e que não podemos continuar negligenciando-a, explorando-a e destruindo-a.

Então podemos sim dizer, que desde o simples canudinho até as ações mais relevantes como prestar atenção no seu consumo e descarte, é papel de todos nós, contudo, somente iremos entender isso partindo de uma Reconexão.

Falta-nos visão sistêmica e é isso que devemos buscar a partir de já por meio de amplo processo colaborativo de Ecoalfabetização (processo onde adultos aprendem a “ler” o meio ambiente). E quem deve fazer tudo isso? Todos nós, por todos o meios, caminhos e lugares entendendo que não podemos mais terceirizar nossas responsabilidades aos ambientalistas, às instituições e a qualquer “salvador da pátria” que nos apareça.

 

  • REPUTAÇÃO EMPRESARIAL associada às boas práticas SUSTENTÁVEIS

Eu não deveria precisar mencionar aqui que estamos na era da informação e que as empresas precisam definitivamente ter muito cuidado com sua imagem perante a opinião pública, fornecedores e clientes né? É inaceitável que empresas ainda continuem insistindo em velhos modelos insustentáveis, “dando um jeitinho” ou simplesmente tentando burlar as leis para não cumprirem suas obrigações ambientais e sociais.

Temos visto no Brasil grandes empresas perderem credibilidade e terem sua reputação manchada por motivações que vão desde a morte de centenas de pessoas por um rompimento de barragem, até a morte de um cachorro assassinado por um segurança que certamente não teve a devida orientação do setor de Gestão de Pessoas (ou RH como queiram), que por sua vez também não deve considerar as questões ambientais relevantes pois nunca foram Ecoalfabetizados.

Você poderia até me questionar: porque o “R” das empresas não é o de “Responsabilidade”? A resposta é simples e direta: preferi falar de reputação pois isso as empresas conseguem valorar como investimento, enquanto a responsabilidade ainda é vista como custo. Mas fiquem tranquilos pois geralmente, para uma empresa conseguir construir uma boa reputação, é preciso antes de tudo que ela seja responsável. Ou será que as empresas ainda acham que o famigerado greenwashing é “sustentável” ao longo do tempo?

 

  • RESPONSABILIZAÇÃO INSTITUCIONAL especialmente dos órgãos de gestão ambiental, sobre a condição ambiental nos lugares

É algo que acontece somente comigo ou você também já percebeu que na área ambiental as instituições públicas não conseguem mais resguardar a sociedade dos riscos ambientais e dos desmandos de toda ordem sobre a natureza e sobre a qualidade de vida nas cidades?

Eu poderia citar incontáveis razões para isso, mas preciso focar no que a Sustentabilidade 4.0 pode trazer de inovação nesse sentido. De todos os pontos, vou mencionar aqui dois aspectos cruciais:

Primeiro: órgãos gestores de meio ambiente precisam renovar suas metodologias de avaliação de impactos e riscos ambientais.

Esse atual modelo baseado em estudos ambientais que justificam todo e qualquer empreendimento pelos ganhos econômicos em detrimento dos impactos ambientais e sociais, não pode mais continuar existindo. O mesmo modelo onde as análises são quase que exclusivamente focadas em análises de IMPACTOS SOBRE A NATUREZA e quase nada em RISCOS TRAZIDOS PELA ALTERAÇÃO DA DINÂMICA E SISTEMISMO DA NATUREZA também não está ajudando. Esse formato atual onde analistas ambientais se pautam exclusivamente nas leis e não avaliam o dinamismo da natureza em si também não tem contribuindo em nada para nos resguardar nem de crimes ambientais e nem de riscos de desastres naturais. Por fim, afirmo que esse modelo baseado em MULTAS e COMPENSAÇÕES FINANCEIRAS em nada estão ajudando a recuperar o meio ambiente uma vez que quase nada desse dinheiro se converte em projetos de recuperação ambiental. Tem alternativa? Claro que sim! Mas não vai ser aqui, nesse texto, que iremos tratar.

Segundo: órgãos de gestão ambiental precisam INVESTIR dinheiro, tempo e pessoas em EDUCAÇÃO AMBIENTAL E ECOALFABETIZAÇÃO.

Não consigo conceber e aceitar que no Brasil seja tão natural investir milhões e milhões em obras de infraestrutura, em mega projetos arquitetônicos e em construção de vias e mais vias e ao mesmo tempo sempre que se fala em Meio Ambiente ou Educação Ambiental nunca há recursos disponíveis.

Qualificar as informações ambientais difundidas, trabalhar em parcerias, se valer da tecnologia e das mídias e pensar em educação ambiental para  crianças e em ecoalfabetização para adultos deve se tornar uma PRIORIDADE nas instituições públicas ambientais.

Precisamos de instituições públicas na área ambiental com capacidade de se responsabilizar pelo que estão fazendo e pelo que não estão conseguindo fazer!

Se eu fosse um gestor público e lesse os parágrafos acima, certamente iria repensar minhas ações, no lugar de ficar tentando me auto convencer de que “faz diferente” e de que tá tudo indo muito bem.

 

  • RENOVAÇÃO das LEIS AMBIENTAIS

Essa é tão perigosa quanto necessária. No Brasil, criamos um sistema de leis considerado eficiente mas que pouco a pouco vem sendo completamente desvirtuado pelas “flexibilizações” das leis, para atendimento de interesses específicos, geralmente nada coletivos. Mas, para além desse fator em si, o que quero mencionar na Sustentabilidade 4.0 é a necessidade de renovação e revisão quanto à visão antropocêntrica de nosso ordenamento jurídico.

Enquanto no mundo muitos países imprimem uma visão mais ecocêntrica em suas leis e até em suas constituições, no Brasil o assunto agora que começa a ser discutido por alguns visionários presentes no sistema jurídico. Felizmente no Ceará temos a juíza e professora Germana Moraes que é uma das principais vozes sobre os Direitos da Natureza.

Sim, nessa nova visão a natureza é considerada sujeito dotado de direito e a importância desse reconhecimento se torna cada vez mais evidente em casos de tragédias como as ocorridas em Mariana e em Brumadinho, onde além das perdas de vidas humanas, perdemos o Rio Doce e estamos perdendo o Rio Paraopeba.

Arrisco dizer que todo essa tentativa para construir uma nova mentalidade sobre a sustentabilidade não poderia ser operacionalizada se não houvesse um caminho alternativo para o ordenamento jurídico atual.

 

São portanto estes os 4R que indico como ponto de partida para a construção de uma Sustentabilidade 4.0, baseada em conhecimento, informação, educação e revalorização da vida.

Em julho desse ano teremos o lançamento do meu livro sobre o tema, onde aprofundarei toda essa discussão.

Fiquem à vontade para curtir, compartilhar e comentar.

 

Magda Maya

Geógrafa e Dra. em Desenvolvimento e Meio Ambiente

@magdamaya.ambiental

 

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