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ENTREVISTA com Fabrício Carpinejar: “Você só sofre se foi feliz um dia”

domingo, 15 de maio 2022

O escritor Fabrício Carpinejar é o convidado do Diálogos Contemporâneos, projeto literário realizado pela Associação dos Amigos do Cinema e da Cultura (AACIC). Ele profere a conferência com tema “O envelhecimento e o espaço social dos que não são mais jovens” nesta segunda-feira, 16 de maio. Depois de Carpinejar, o escritor, ambientalista e líder indígena Ailton Krenak encerra o projeto em Fortaleza na terça-feira, 17, com a conferência sobre “A cultura do descarte: sociedade de consumo, meio ambiente e o futuro da humanidade”. O projeto acontece às 19h no Cineteatro São Luiz.

Foto: Divulgação


Conhecido do grande público por ser comentarista do programa “Encontro” com Fátima Bernardes na TV Globo, Carpinejar é um dos mais importantes escritores da literatura nacional na atualidade. Tem 48 livros publicados e mais de 20 prêmios literários, entre eles, duas vezes o Prêmio Jabuti. Suas obras transitam entre diversos gêneros como poesia, crônicas, infanto-juvenis e reportagens. Seu novo livro, “Depois é Nunca”, (Grupo Editorial Record), escrito durante a pandemia, é um conjunto de reflexões aprofundadas sobre o luto e a despedida  Carpinejar também é jornalista com larga experiência em programas em rádio e televisão, ator interpretando suas crônicas, influenciador digital com três milhões de seguidores nas redes sociais, palestrante e professor. Em entrevista para o Jornal O ESTADO, Carpinejar fala sobre sua carreira influências, escritores cearenses que admira, a literatura em tempos de venda online, a versatilidade de seu trabalho além de dar uma aula de sensibilidade, reflexão, humildade, amor e inteligência.

O ESTADO – Você é poeta, jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, além de palestrante e professor. Como você se divide em tantas funções? Filho dos poetas Maria Carpi e Carlos Nejar, seuns pais, obviamente te influenciaram. Quais foram as outras referências? Quais escritores você tem como influência na sua carreira?
FABRÍCIO CARPINEJAR – Hoje eu atuo como jornalista, sou comentarista do programa Encontro com Fátima Bernardes, sou colunista do jornal O Tempo de Belo Horizonte e atuo também como palestrante. Tenho 48 livros publicados. O mais recente é o “Depois é Nunca” que está na sua quinta edição, con mais de 20 mil livros comercializados. A minha referência é a boa poesia. É Manuel Bandeira, Drummond, Emílio Moura, Murilo Mendes, Jorge de Lima. Sem sombra de dúvidas, foram esses autores que sempre fizeram minha cabeça. Ou melhor, o meu coração. Eu sempre fui um leitor de biblioteca de escola. Eu gostava de passar o recreio lendo, porque eu sempre achei que os livros da biblioteca tinham um cheiro doce. Um cheiro de vida não usada.

O ESTADO – Para você, com o fechamento de livrarias e a falta de leitura dos brasileiros, existe uma crise na literatura nacional atualmente? Quais as grandes dificuldades de um escritor e poeta no Brasil? A internet e suas redes sociais atrapalham ou ajudam?
FABRÍCIO CARPINEJAR – Houve um crescimento das vendas, em especial online. A pandemia derrubou qualquer medo que se tinha do livro eletrônico e das compras online. A literatura precisa das livrarias físicas, porque é uma maneira de uma história de vida recomendando um livro. Se você vai comprar online, você vai apenas procurar a vitrine, o que está sendo visto. Não vai ter uma recomendação médica de alguém que foi curado por uma obra. O livreiro é insubstituível, porque ele traz a sua experiência como confidente. Como cupido de uma mensagem, um conteúdo, de uma ficção. Isso não podemos perder, porque o livreiro é um contador de história, é um livro vivo. Deveria ter um incentivo às pequenas livrarias, e não há. Ficamos reféns das grandes livrarias, e se elas quebram, acabam com o mercado. Precisa ter essa invasão de pequenos estabelecimentos que podem fazer um contato mais customizado, personalizado. Não vejo um conflito, um impasse com a Internet, redes sociais e a literatura. É apenas um outro suporte. O TikTok pode servir para você dar mensagens e fazer reflexões em até 3 minutos. Não é o suporte que irá empobrecer a sua alma.

O ESTADO – A formação em jornalismo influenciou a sua literatura? Você é um escritor famoso pela versatilidade de temas atuais, presente em redes sociais, sempre aberto a novas ideias e participando de programas de TV como o Encontro de Fátima Bernardes. Inclusive você acaba de ser contratado por uma funerária para fazer uma websérie sobre luto. Quais os projetos mais diferentes e inusitados que você encarou?
FABRÍCIO CARPINEJAR – O jornalismo, você sabe, prepara o profissional para a invisibilidade. Você quer ser veículo de uma ideia. Você combate a vaidade, ego, ostentação. Você aprende a enxugar a sua essência. O jornalismo serviu para mim como uma escada para a literatura. O que eu mais queria era desaparecer para que o leitor se descobrisse. O bom texto é aquele que o leitor esquece que existe um autor. Sobre a versatilidade a respeito desse trabalho com um grupo que possui cemitérios em todo país, tem tudo a ver com a minha mensagem a respeito do livro “Depois é Nunca”, em termos de cuidado com o enlutado, de não apressar a ferida, de deixar ela cicatrizar. De acolher quem está sofrendo e não julgar, não sentenciar, não acelerar o seu processo. Cada um tem um ritmo e absorver uma ausência leva uma vida inteira. Tem o Procon do Amor, que faço em minhas redes sociais, que eu falo que é direito do consumidor um amor sincero, sem propaganda enganosa. Parece uma graça mas é algo sério.

O ESTADO – Com 20 prêmios importantes na literatura e uma vasta lista de livros lançados, qual a obra você tem mais orgulho de ter lançado? Existe um apreço por algum livro específico? Tem algum livro que você se arrepende de ter lançado?
FABRÍCIO CARPINEJAR – Se você se arrepender do seu currículo, você estaria se arrependendo de uma versão sua, da sua vida. O que nos resta é perdoar questões anteriores. Nós somos o que somos por causa da nossa experiência. Eu sou extremamente orgulhoso com todos os livros que eu publiquei. Todos fazem parte de uma narrativa. Uma narrativa de formação, de sensibilidade. O importante é você se entregar para aquele tempo de escrita. O tempo não é fiador. Tem muita gente que diz, eu fiz um livro em 20 anos, querendo assegurar uma qualidade pelo tempo de desenvolvimento. Você pode escrever uma grande obra em dois meses, em dias. O que importa é a sua urgência em falar, a sua honestidade emocional. Eu gosto muito de um livro que fiz sobre alienação parental. O quanto os pais também sofrem pelo distanciamento com os filhos, que é o livro de poesia “Meu filho, minha filha”.

O ESTADO – Em ‘Depois é nunca’, um dos seus últimos livros lançados, você aborda os efeitos da pandemia na vida das pessoas, o luto, a saudade e destaca a importância da arte no processo de cura. Quais foram as suas maiores dificuldades e lições durante a pandemia?
FABRÍCIO CARPINEJAR – Você só sofre se foi feliz um dia. Todo sofrimento é saudade. Você só sofre se já teve mais do que você tem hoje. Todo o sofrimento é a busca por repetir uma alegria. A pandemia nos trouxe esse espaço interior, uma volta para si mesmo. Você não tem mais como fingir que está tudo bem quando não está. Você não tem mais como viver pelos outros. Não há tempo para se despedir. A despedida já pode ter acontecido. Você precisa caprichar nos momentos imperfeitos. A gente deve dar o ombro, o colo, para quem está sofrendo. Você nunca deve menosprezar o sofrimento, nunca dizer que é uma bobagem. Eu aprendi na pandemia a me comunicar melhor.

O ESTADO – Como será a sua participação no projeto literário Diálogos Contemporâneos que está acontecendo em Fortaleza? Quais os escritores cearenses você destaca e admira?
FABRÍCIO CARPINEJAR – Tenho participado com frequência dos Diálogos Contemporâneos. Neste momento estamos falando sobre o envelhecimento, o quanto temos um preconceito com quem envelhece. É um preconceito com qualquer extravagância. Qualquer repetição de histórias, como se a gente não repetisse as histórias toda vida. Repetir é aperfeiçoar. O Diálogos Contemporâneos são pensadores que aprofundam discussões com o público. É um prazer poder voltar a Fortaleza. Eu tenho grandes afetos literários, o Braulio Bessa, a Ana Miranda, que são grandes escritores, cada um na sua área, o Braulio pela sua eloquência e a Ana pelo seu refinamento estilístico. Ela é uma cronista dos nossos costumes.

Por Felipe Palhano

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