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Livro aborda a história de Santana do Parnaíba

quarta-feira, 27 de agosto 2014

O jornalista e escritor Ricardo Viveiros lançou em agosto, o livro A Vila que descobriu o Brasil: A incrível história de Santana de Parnaíba (Editora Geração, 288 páginas, R$ 44,90). Resultado do trabalho de oito anos de pesquisa, que envolveu viagem a Portugal e a análise de uma vasta bibliografia, a obra mostra como a cidade, na ocasião um pequeno povoado às margens do Rio Tietê, foi fundamental para as Bandeiras e a expansão do território sob o domínio dos portugueses, que resultou na formação do Brasil.  Cruzando os acontecimentos de época na Europa, com os episódios na Colônia, Viveiros constrói uma narrativa que mostra como a história do pequeno povoado – que mais tarde seria elevado a Vila e que é, hoje, uma cidade com mais de cem mil habitantes – influenciou e foi impactada pelos momentos vividos no Brasil e na Península Ibérica.

Um aspecto interessante trazido pelo livro é o mapeamento da trajetória dos primeiros exploradores do planalto de Piratininga, “o lugar onde o peixe seca”, com a descrição de acidentes geográficos hoje tão conhecidos – e completamente transformados – pela recentes gerações de paulistas. É o caso da bacia hidrográfica do Rio Tietê, “principal acidente geográfico do planalto, não só pela sua dimensão e quantidade de águas, mas também por correr na direção do interior e desaguar no Rio Paraná”. Segundo Viveiros, “o rio que não corre para o mar era, portanto, a principal via de penetração nos sertões dos domínios portugueses, nos séculos XVI e XVII”.

É este o ponto de partida da grande aventura descrita por Viveiros em uma obra que, nas palavras do prefaciador e último vencedor de Livro do Ano de Não Ficção do Prêmio Jabuti, Audálio Dantas, mesclam “a paixão do jornalista ao rigor da pesquisa histórica”. Na definição do prefaciador, “Ricardo Viveiros narra a fascinante história de Parnaíba com a preocupação do repórter atento que sempre foi. Ele é, como todo bom repórter, um caçador de histórias, do tipo que é capaz de ir até o fim do mundo para contar o que viu. De certa forma, um tipo de bandeirante da informação”.

Em 288 páginas, o autor refaz, literalmente, o caminho desde Portugal até Pindorama (como os índios chamavam o Brasil), de Porto Seguro (Bahia) até Santana de Parnaíba (São Paulo) e, dela, alcança as fronteiras de todo o País. “Foram muitas e impressionantes as constatações feitas. A principal é que partindo de Santana de Parnaíba se descobriu, efetivamente, o Brasil, fruto da coragem desbravadora de lendários bandeirantes, como: Fernão Dias Pais Leme, Raposo Tavares, Bartolomeu Bueno da Silva (o “Anhanguera”), Borba Gato e Domingos Jorge Velho”, resume Viveiros.

Encrustada, hoje, no coração da maior região metropolitana do País, Santana de Parnaíba era, em 1580, o local em que “principiava o sertão”. Ou seja, era a confluência tanto entre os caminhos indígenas que, por terra, seguiam o fluxo do Tietê, quanto ponto de partida para expedições rio adentro. Era também, por conta disto, uma localização estratégica para a defesa da Vila de Piratininga, que mais tarde daria origem à cidade de São Paulo. Talvez por isso, tantas figuras importantes para a colonização passaram – e deixaram suas marcas – por Santana de Parnaíba.

Escrito como um romance de época, o livro traz detalhes de personagens locais fundamentais para a formação da Vila e cujas trajetórias impactaram a história nacional. É o caso de Suzana Dias, neta do cacique Tibiriçá, importante líder indígena aliado dos portugueses. Viúva do senhor da sesmaria em que o povoado de Paranaíba estava situado, tornou-se a “líder de fato” da localidade devido às constantes ausências dos homens da família, que se embrenham com frequência em expedições bandeirantes. É, hoje, considerada por muitos, a verdadeira fundadora de Santana de Parnaíba.

Filha da índia Beatriz e do colono Lopo Dias, Suzana Dias casou-se por volta de 1570 com Manuel Fernandes Ramos, proprietário de terras que chegara ao Brasil em 1564. Tiveram 16 filhos, entre eles três conhecidos pelas contribuições para a fundação de importantes cidades do Estado – Domingos (fundador de Itu), Baltazar (fundador de Sorocaba) e André Fernandes (que teve papel importante na fundação de Santa de Parnaíba). Originais de São Paulo, mudaram-se para Parnaíba, “a quebra da grande água”, por volta de 1580, ano em que uma epidemia de disenteria dizimou centenas de habitantes do planalto. Após a morte de Manuel Fernandes, por volta de 1589, o primogênito André, ainda com 10 anos, passaria a proprietário das terras. No entanto, o mando de fato foi exercido por Suzana, cuja grande importância podia ser medida pela citação de seu nome em documentos oficiais – algo extremamente raro para a época, em se tratando de uma mulher.

Mas, Suzana não foi a única mulher a administrar propriedades na Parnaíba dos séculos XVI e XVII. Por conta da ausência prolongada dos maridos, imbuídos nas entradas e bandeiras que, cada vez mais, estendiam-se por meses ou anos a fio, era papel das esposas cuidar e tirar proveito econômico dos sítios e fazendas do povoado. O padre José de Anchieta, recém santificado, foi confessor de Suzana Dias.

Além de ponta de lança para as bandeiras que definiram as rotas e fronteiras do sertão, a Vila de Santana de Paranaíba ficou famosa também por sua rivalidade com sua vizinha mais destacada, a Vila de São Paulo. Não concordavam, por exemplo, quanto à necessidade de manutenção do Caminho do Mar, que interessava aos moradores de São Paulo, mas não possuía qualquer serventia aos que viviam em Parnaíba, mais preocupados com as estradas que levavam ao interior.

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