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Economia

Arquitetura cearense é diferencial no mercado

segunda-feira, 20 de outubro 2014

Fortaleza, diferentemente das diversas regiões do País, destaca-se no quesito inovação, razão pela qual atrai olhares de investidores do Brasil e do mundo. Outro fato a ser considerado é possuir localização geográfica privilegiada. É a capital brasileira mais próxima da Europa e dos Estados Unidos, cerca de seis horas e meia de voo, e com apenas três horas e meia de avião, já se explora o continente africano. E isso faz com que a arquitetura dos edifícios e residências de nossa Capital tenham um diferencial, um charme a mais, movimentando o mercado.

Ser meio “esquina do mundo” também faz com que a cidade converse com outras culturas mais facilmente. A possibilidade de conhecer e trocar experiências diversas, pensamentos, modos de viver, isso tudo gera a inventividade humana. Nesse contexto surge o arquiteto, um profissional que reúne habilidade técnica, sensibilidade, ousadia, arte e tantos outros atributos. “O Ceará é uma terra diferenciada do Brasil todo, e um caso único no mundo. Parece que as origens do povo cearense, essa miscigenação com muitos sírios, libaneses, espanhóis, portugueses, aqui em nosso escritório falamos 14 idiomas, pois temos arquitetos portugueses, espanhóis, italianos, portugueses, caboverdianos, dentre outros”, explicou o arquiteto Luiz Deusdara, que tem projetos espalhados pelo Brasil e pelo mundo.

Seu escritório completou 30 anos de existência, em agosto, e procura fazer uma grande mistura de ideias, pois tem unidades no Brasil, Portugal, Espanha, Romênia, Cabo Verde e Moçambique. “Faço uma mistura desses arquitetos todos, levando brasileiros para a Romênia, trago romenos para cá, levo para Moçambique. Então você imagina um projeto desenvolvido por um arquiteto português, que tem um jeito de projetar mais sereno, com um arquiteto moçambicano, que tem um senso estético colorido, completamente diferente, com um italiano, que tem uma linha de design mais refinada, sofisticada, com um brasileiro. Você mistura isso tudo e sai o que eu chamo de invenção humana, de você não ser dono de ideia nenhuma, fazer parte dela e compartilhá-la. Pois o conhecimento só cresce quando você o partilha, assim como a arquitetura”, disse.

DESENVOLVIMENTO

Ele lembrou que tem uma fábrica de isopor em Maracanaú, a Isoplast, que o arquiteto diz como quer a densidade do isopor e, de certa forma, induz a indústria a pesquisar, mexendo com a economia dela, empregando gente, pesquisadores, trazendo robô de fora, da indústria automobilística para a da construção civil, e mudando-a pois ela ainda é muito arcaica, medieval. “Você imaginar construir prédios inteligentes, usando pedreiros analfabetos, não entra na cabeça de ninguém. A industrialização na construção civil é uma tendência mundial, até para diminuir os desperdícios, pois ela é poderosíssima, em todo o planeta terra, movimentando milhões e milhões de reais ou dólares. E ela não evoluiu como as outras indústrias. Você entra em um carro, ele tá ligado a satélite, tem som, ar-condicionado, banco de couro, o banco esquenta, molda-se a seu corpo, entre outras questões. E você vai para a construção civil e ainda tá no tijolo. Então, porque só ela usa mão de obra desqualificada? Porque não qualificá-la, pois aí diminuiriam os preços, democratizaria a arquitetura”, advertiu.

Luiz Deusdara disse que um apartamento médio, de 60 metros quadrados, custar meio milhão de reais, é um absurdo. “Não tem cabimento isso. Se você olhar o preço do metro quadrado de construção e comparar com a evolução do automóvel, por exemplo, verá que os automóveis têm muito mais tecnologia e são muito mais baratos que os apartamentos, porque são feitos em escala industrial. Temos de levar a construção civil para a escala industrial, e com qualidade. Pois a construção civil tradicional a cada três prédios feitos eu jogo um fora, o que é absurdo. Quando vou para a construção metálica, mais industrializada, isso cai para 5% de perdas. E a tendência é isso diminuir para 2%, 1%, e não um terço. E quem paga isso é o consumidor. Então já passou da hora de a indústria da construção civil acompanhar o avanço na tecnologia que houve na medicina, na automobilística, na odontologia. Hoje você opera o olho com laser, e por que não usa isso na construção? Usa só para fazer nivelamento de laje e prumo, e ainda sai parede fora de esquadro. É algo que não tem muito cabimento”.

Ele afirmou, ainda, que o novo projeto da Construtora Dias de Souza, o Washington Soares Trade Center (WSTC-SOHO) representa uma grande quebra de paradigmas, devido às suas linhas mais sinuosas, elípticas. “Porque que as salas, as casas, devem ser todas retangulares, quadradas e em esquadro. Isso é só por facilidade, pois os pisos são quadrados, as portas são retangulares, os sofás retangulares. Porque não podem ser curvos, amorfos? Então o WSTC, com suas formas elípticas, que já dá um movimento e permite infinitas fachadas, pois à medida que você vai se deslocando ao longo dela, vai mudando. As salas são elípticas e radiais, dando uma forma mais harmoniosa, bonita e instigante. Será um marco visual na avenida, algo que se diferencia, e para nós é uma alegria o sucesso do lançamento e fico muito orgulhoso de ter podido participar desse empreendimento, que consumiu cerca de um ano e meio de trabalho, com nossos 50 arquitetos”, completou Luiz Deusdara.

ESCRITÓRIO REFORÇA AMBIENTE CRIATIVO

O escritório do arquiteto Luiz Deusdara (foto) – Luiz Deusdara Building Workshop (LDBW) –, reforça a importância do ambiente para a criação. O projeto privilegiou o uso de materiais como alumínio, metal e tecido. O conjunto de utensílios pensado de maneira harmônica faz do escritório um lugar aconchegante para clientes internos e externos. Na equipe o prazer de misturar profissionais de diversos países favorece a troca de conhecimento, além do aperfeiçoamento constante.

No início dos anos 2000, o LDBW implementou a expansão internacional. Hoje tem escritórios em Portugal (Lisboa e Braga), Espanha (Barcelona), Romênia (Bucareste e Constança), Cabo Verde (Praia) e Moçambique (Maputo). Com projetos em mais de 80 cidades espalhadas por oito países, em quatro continentes distintos, América do Sul, América do Norte, Europa e África. A LDBW projeta grandes complexos urbanos como: aeroportos, hotéis, resorts, retails, outlets, shoppings, edifícios residenciais, edifícios comerciais, centros culturais, hospitais, teatros, estádios e muito mais.

ESPÍRITO INOVADOR

“Temos um projeto por exemplo, que utiliza o isopor e a poliureia, este  é um tipo de experiência que mexe com toda a cadeia da construção civil. A partir de um experimento levamos possibilidade de inovação para um segmento que ainda trabalha de modo arcaico. A indústria da construção civil movimenta uma grande cadeia em torno dela, mas não evolui na mesma proporção. Ainda se constrói como construíam nossos mais remotos antepassados”, afirmou Deusdara.

Ele explicou, ainda, que para essa experiência que estão fazendo, não se constrói, mas se esculpe uma casa ou uma obra, como um Cristo Redentor que está sendo feito para a cidade de Palmas, no Tocantins. “É um outro jeito de pensar as coisas e que dá mais resistência que qualquer material que você possa usar. O isopor me dá o isolamento térmico e acústico, enquanto a poliureia me dá a resistência mecânica, contra o fogo, que pode ser esculpida e é barata. E com o uso de novos materiais e novas tecnologias, acaba mexendo com a economia como um todo”, lembrou.

O arquiteto questiona o fato de se falar em construções inteligentes e sustentáveis, se não há esforço algum na qualificação da mão de obra para a construção civil. Para ele, deve-se levar a construção civil para a industrialização, preservando a qualidade, obviamente, além do uso das tecnologias de modo efetivo.

“Quanto mais o ser humano se sente livre em suas ideias, espontâneo em seu ambiente, mais inventivo ele será. Sou um espírito livre, essa liberdade me constrói. Esta sala em que estamos representa uma quebra de paradigma”, diz o arquiteto, referindo-se ao próprio ambiente de trabalho, que possui uma abertura no alto, por onde passa a luz solar, um diferencial inspirador, como ele mesmo ressaltou.

Há um século e meio, o historiador da arquitetura francês Auguste Choisy definiu a arquitetura como a “arte de construir”. A arquitetura é, portanto, construção – isto é, técnica – mas, também, arte. E, sendo arte, se constitui em uma manifestação cultural, vinculada a uma determinada cultura, variando no tempo e no espaço.

A arquitetura, porém, possui uma especificidade frente às demais produções artísticas: ela é o que podemos chamar de arte compulsória. Como observou um dos mais importantes arquitetos contemporâneos, o italiano Renzo Piano – co-autor do projeto do Centro Pompidou, em Paris –, “uma música ruim pode não ser escutada, e é possível não olhar para um quadro feio, mas um prédio feio está ali, diante de nós”.

Trata-se de uma responsabilidade pesada, até para as gerações futuras, pois permanece fisicamente. Dessa forma, o interesse pela produção de uma arquitetura de qualidade extrapola o círculo restrito dos arquitetos e estudantes, além de dizer respeito, diretamente, a toda a sociedade.

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