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Gastronomia - por: Danielle Gondim

O mistério da chegadinha

sábado, 17 de abril 2021


Existem algumas coisas que carregam em si um certo mistério e algumas receitas também são assim. As chegadinhas, por exemplo, para mim, até hoje são misteriosas. Ou eu quero que sejam. Como será que é feito aquele biscoito fininho, que tem esse nome simpático, a cara da minha cidade, que a gente só encontra, ou só encontrava (explico já o porquê) quando escuta o som do triângulo forrozeiro? E não posso esquecer do recipiente de armazenamento que também é incomparável. Para completar a ilustração, não é a qualquer hora do dia que você pode encontrá-lo, não basta querer. Tem que esperar. O triângulo sempre toca na melhor hora do dia. Na hora em que o Sol não sabe se vai ou se fica…

Foto: Nicolas Gondim

Voltando ao mistério, na verdade, sabe quando a gente não quer descobrir os detalhes, pra não perder a graça? Pois é. Eu ainda estou resguardando a chegadinha. Ninguém me conte, por favor, os seus segredos. Não quero saber quem faz, o equipamento nem muito menos seus ingredientes. Quero achar que é a coisa mais difícil do mundo. Embora, há algum tempo, ela já tenha quase perdido esses ares. O triângulo já quase nem toca mais, só em alguns bairros. Em outros, basta fechar o sinal e vem o vendedor, com uma modernosa maquininha de cartão de crédito, vender a preço de bolacha chic de supermercado.

Perdeu-se a graça de ficar procurando de onde vem o som ou de correr atrás pra não perder o tocador e vendedor. E, enquanto a gente se rende às facilidades e saca o cartão de crédito, vem um questionamento.

  • Em que momento o produto popular deixa de ser “do popular”?
    Pense comigo, ele só chegou a esse pódio porque a maior parte de seu povo podia consumir – os populares. Ou seja, era produto de todos. Quando fica importante, como diria minha avó, vira produto de poucos e, aí, deixa o pódio. Assim sendo, as próximas gerações, não terão o produto que é a cara daquela cidade e da cultura daquele povo, a não ser alguns poucos que podem pagar. Serão apagados da história do lugar? Servirão só pra fazer bonito nos cardápios conceituais de chefes renomados?
  • Tomei aqui de exemplo esse biscoitinho peculiar, que se come nas “horinhas de descuido”, parafraseando o grande escritor Guimarães Rosa. Mas, são tantos outros produtos regionais que ficaram caros, que me ressinto. Nosso feijão verde, nossa carne de sol, nossa manteiga da terra que, para baratear, agora, fazem uma mistura com margarina… Nossa castanha de caju, nossa nata (que também misturam com a processada, citada acima), nossa tapioca gourmetizada, entre tantos outros.
    Deixo aqui, então, uma receita de um biscoito bobo, mas delicioso, para comer naquelas horas de felicidade e que se faz num piscar de olhos.
    Biscoitinhos de limão
    (não é receita de chegadinha, lembra do mistério?)
  • Ingredientes
    Farinha de trigo – 300g
    Manteiga – 200g
    *Açúcar refinado -100g + 50g para finalizar.
    Limão – Taiti ou siciliano (raspas de 1 ou 2 unidades, a depender do tamanho.
    Sal – 1 pitada
  • Modo de preparo
    Misture todos os ingredientes com a ponta dos dedos, sem sovar, até que esteja tudo bem unido. Não mexa demais. Faça rolinhos do diâmetro de uma moeda de 50 centavos. Passe no açúcar e leve pra gelar. Quando estiver bem firme. Cortar todos da mesma espessura. Levar para assar em forno, pré-aquecido a 180 graus, até que comece a dourar. Quando esfriar, guardar em pote hermeticamente fechado ou numa lata.
  • *Vamos fazer um combinado: nas minhas receitas, nunca, jamais, em tempo algum, troque manteiga por margarina. Não é a mesma coisa. Margarina não é alimento.
Foto: Reprodução/ Arquivo pessoal
Foto: Reprodução/ Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal
Foto: Reprodução/ Arquivo pessoal

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