32 C°

terça-feira, 30 de novembro de 2021.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

aniversario
aniversario

Adoção

“Eu fui só buscá-lo, não fui conhecê-lo”

Na sala, um grande cercadinho com brinquedos diferentes que iam preenchendo espaço, até não caber mais. Em cima de uma mesinha branca, um pequeno ônibus também branco “O pai dele não consegue dizer não para ele, fomos ao shopping ontem e ele quis aquele ônibus e aí está”, conta Lília Maria Santos, mãe de João Gabriel.

FOTO DIVULGAÇÃO


Quem vê a casa que respira e expira João Gabriel por todos os lados, não imagina a história de luta que há por trás. A mãe, Lília, é portadora da doença autoimune lúpus, que causa o não reconhecimento das células do corpo pelo próprio organismo. Por isso, engravidar é uma situação extremamente delicada, “O meu primeiro filho, não tive nada. Mas depois, devido à medicamentos, eu não consegui mais engravidar”. Lília conta que teve sequelas cardíacas e os profissionais da saúde que a acompanhavam se posicionaram contra a uma nova gravidez “Mesmo assim, eu tentei, forcei e fiz tudo que eu pude, mas não consegui”.

A advogada também considerou a possibilidade de realizar uma inseminação artificial, porém, durante os exames, descobriu que possuía endometriose, distúrbio no qual o tecido do endométrio acaba se localizando fora de sua posição normal, fato que também dificulta a gravidez, “A medida que o tempo foi passando, o desejo de ter um filho foi aumentando. Nós três já nos dávamos super bem, então tive a ideia de adotar”.

No começo, Lília conta que seu marido, Paulo Roberto, estava receoso quanto à adoção, porém sempre havia sido um grande sonho dele ser pai. Com o desenrolar dos fatos, Lília conta que passou por algumas dificuldades antes de entrar de fato no processo de adoção “Foi horrível e foi bem difícil”, desabafa.

Após as dificuldades, a família resolveu entrar no processo de adoção pelo fórum e Lília conta, que novamente, foi um trabalho de convencimento. Pois, dessa vez, exigiria uma exposição maior. No Brasil, o processo de adoção é gratuito e deve ser iniciado na vara da infância e da juventude. Para adotar, é necessário idade mínima de 18 anos e diferença de 16 anos entre quem deseja adotar e a criança.

A adoção é um processo longo e pode ser demorado, pois existem diversas etapas. Após análise da documentação enviada, a família passará por uma avaliação de uma equipe multidisciplinar do Poder Judiciário, para conhecer um pouco mais sobre quem está se disponibilizando para cuidar da criança. Após isso, há um curso preparatório de caráter obrigatório “Nós fizemos o curso e deu tudo certo. O problema foi a demora”, lembra Lília.

De acordo com ela, a demora é a pior parte. Mesmo que ela tivesse conhecimento das leis e da forma de funcionamento da justiça, não foi uma espera fácil “Era o que eu mais reclamava, como pode? Uma adoção levar 4 ou 5 anos?”. A advogada explica que em 4 anos, a vida pode mudar e, assim, os desejos também, o que pode fazer com que muitas pessoas desistam da adoção “É uma demora desesperadora para quem quer ser pai ou mãe”, desabafa.
Lília conta que, durante o período de espera, havia uma grande ansiedade que a fazia sempre perguntar pelo processo quando ia ao fórum, “Era uma ansiedade sem fim”. Apesar de ter sido um grande sofrimento, a advogada entende o porquê da demora, afirmando que existem muitas crianças que precisam de um lar, mas estão pendentes de processos judiciais “É uma situação que há maus tratos, mas a mãe não quer deixar. Tinha uma menina no abrigo que a avó queria, mas a avó já cuidava de seis crianças e então, a guarda não é liberada”, explica.

Para a advogada, a adoção aumentou ultimamente no país. De fato, ainda em 2018, o número de pessoas que estavam dispostas a adotar já era doze vezes maior do que a quantidade de crianças disponíveis. Em 2020, de acordo com os dados mais recentes do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), existiam 30 mil crianças acolhidas no Brasil e destas, 5 mil, estavam aptas à adoção. Porém, por conta do empecilhos judiciais, a adoção acaba se tornando uma árdua batalha.

No caso da advogada Lília Maria, após três anos de espera, a família já estava pronta para desistir. Além disso, Lília foi informada que ao completar 4 anos, a família passaria por toda a avaliação novamente. Dessa forma, ela informou ao fórum que se completassem os 4 anos, ela ia se retirar do processo “Faltando 15 dias para completar os 4 anos, eu recebo um telefonema ‘Seu bebê chegou’”.

Naquela mesma sexta-feira de manhã, a advogada viu seu bebê por foto pela primeira vez. Na segunda-feira, Lília e o marido Paulo conheceram João Gabriel “Quando a gente pegou, foi uma emoção tão grande quanto a do meu mais velho, quando o peguei nos braços. Ela me perguntou: ‘É o filho de vocês?’ e eu disse ‘É’”. A advogada conta que foi um momento de conexão que estava sendo construído desde o telefonema, “Para mim, eu fui só buscá-lo, não fui conhecê-lo.”

Dez dias depois, João Gabriel chegou em casa. Para o irmão, Edilmar Neto, o bebê foi um presente “Foi uma das melhores coisas que já aconteceram, todo mundo fica mais feliz com ele, todo mundo o ama. Ele é alegre e diverte a casa”, conta. O pai, Paulo Roberto, se sentiu realizado,“O João Gabriel veio trazendo muita luz, muita paz e muita alegria. Veio para harmonizar mais ainda a família, ele veio na hora certa. Nós reclamávamos muito da demora, mas com a chegada dele nós esquecemos toda a demora. Hoje a gente vive em função dele, a casa é dele, ele que manda, ele é o príncipe da casa, a coisa mais linda do mundo”, se emociona.

Lília conta que a alegria foi tanta, que atualmente, o marido diz que, se houvesse condições, entraria no processo de novo “Ele veio e eu acho que não foi só pra mim,
foi pra todo mundo”. Da cozinha, a secretária Edinalva, que cuida da família há anos, reitera, “Ele é doido por mim e eu sou doida por ele”.

Para o futuro, a advogada sonha em dar a João Gabriel tudo que for possível “Queremos dar principalmente estudo e uma vida tranquila. Tudo da nossa vida ele tá no meio, nossos amigos abraçaram ele. A gente não é mais ‘a gente’, nós somos os pais do João Gabriel. É o amor de todo canto que a gente vai”, detalha.

João Gabriel veio ao mundo no dia do falecimento do pai da advogada “Ele transformou uma data, ano passado, eu não lembrei que fazia anos que meu pai faleceu. Até nisso, ele veio transformar”. Atualmente, a família avalia que o processo foi uma luta, mas que a felicidade hoje é tão grande que nada de ruim é lembrado “Quando você tiver com seu bebê no braço, você não vai mais lembrar de nada da parte ruim, você só lembra da parte boa”, aconselha.
“João deixa um rastro de luz por onde passa, ele ri com os olhos. A demora é dolorosa, mas vale muito a pena. Deus estava caprichando e precisou desse tempo”, a família de Lília Maria agora está completa e a felicidade transborda em cada palavra. João Gabriel, compartilha até mesmo das paixões do pai e a família se impressiona sobre o quanto o encaixe do pequeno com a família foi perfeito “Adotar é amor, amor de filho não dá pra se explicar. É você amar alguém que você não sabe nem se foi gerado ainda, mas é amar, não se define, só se sente”.

hoje

Mais lidas

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com