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“PT está apontando para uma campanha mais ao centro”, afirma Técio Nunes

segunda-feira, 24 de junho 2024

Pré-candidato do PSOL à Prefeitura, produtor cultural Técio Nunes diz em tom crítico que PT ajuda extrema-direita com estratégia eleitoral e pondera ações do prefeito Sarto

Gabriela de Palhano e Kelly Hekally

Terceiro entrevistado da Série Eleições 2024, do jornal O Estado, Técio Nunes é um dos nomes postos à corrida pela Prefeitura de Fortaleza. Estreante em pleitos, o produtor cultural é a aposta do Psol para fazer frente à disputa ao Paço Municipal e à Câmara Municipal de Fortaleza (CMFOR), que atualmente conta com dois mandatos do partido.

A missão é chegar a quatro. Na conversa com as jornalistas Gabriela de Palhano e Kelly Hekally, Técio se coloca como o candidato legitimamente da periferia e capaz de apresentar as reais demandas da população que mora nos bairros de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Capital.

Durante o bate-papo, o pré-candidato critica a estratégia política do PT, a quem atribui ter optado por uma candidatura de centro, bem como o modelo de segurança pública do governador Elmano de Freitas (PT), investe em desfavor dos também pré-candidatos André Fernandes, deputado federal pelo PL-CE, Capitão Wagner (União Brasil), e Eduardo Girão, senador pelo Novo-CE.

Ao prefeito José Sarto (PDT), que tenta sua reeleição, o psolista sobe o tom acerca também da segurança pública e de aspectos como a infraestrutura de Fortaleza. Na sequência, o Estado vai publicar as conversas com o deputado André Fernandes e o prefeito Sarto, que será entrevistado na próxima quinta-feira (27).

O presidente da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), Evandro Leitão (PT), também foi convidado pela série, que está disponível, além de nas edições digitais, no nosso portal e canal YouTube.

O ESTADO | O seu nome é estreante na eleição e deixou de fora por exemplo o do deputado estadual Renato Roseno. É uma estratégia de mudança de quadro do Psol?
Técio Nunes | O Psol tem um histórico de apostar sempre na reconstrução e renovação dos seus quadros. É um princípio partidário. Na história do Psol, estamos vivendo um processo de renovação constante de quadros, inclusive a crítica que nós fazemos é que essa lógica de perpetuação de quadros na política não é saudável nem para a vida partidária nem pra vida política dos próprios partidos. Temos hoje o [Guilherme] Boulos liderando a pesquisa para a cidade de São Paulo. Até um dia desses, ele não tinha sido testado como candidato. O próprio Renato Roseno até 2006 nunca tinha sido candidato. Há um processo de renovação na nossa bancada na Câmara Municipal. A gente está neste exato momento apostando em um novo perfil, uma análise do partido, não só para a Câmara, mas também para a Prefeitura. É aí que entra nossa candidatura, que tem o desafio inclusive de conectar um eleitorado histórico mais oriundo da classe média com um que precisamos atingir, que está nas camadas mais populares.

O E. | Você foi um dos fundadores do Psol?
T. N. | Eu, com 16 anos de idade, ajudei no processo de coletas de assinaturas para criar o partido. Uma das pessoas [que me inspiraram] foi a Heloísa Helena, uma voz solitária no Senado contra a reforma da previdência, que atingia o setor público. Aquela voz nordestina aquilo me encantou. Foi quando encontrei os amigos Alexandre Uchoa, presidente estadual do Psol, e disse que queria fazer parte. Ajudei na coleta, e se fundou o partido.

O E. | Estar na pré-campanha é, para além da eleição majoritária, uma forma de impulsionar as proporcionais em nome do Psol?
T. N. | Sem dúvida nenhuma, nós temos desafios para esta campanha. O primeiro, ao que o partido me provoca, é não só manter nossa bancada de vereadores e quem está lá, mas sobretudo ampliar. Quando a gente encontra um cenário como a gente está encontrando agora, dessa falsa polarização, a gente percebe a importância de termos parlamentares que estejam mais comprometidos com um debate mais sério, mais popular e também mais à esquerda. Acho que ter dois vereadores já é um bom número. Com a federação Psol-Rede, se ela tivesse sido formada em 2020, teríamos condições de ter eleito quatro vereadores. Hoje, essa federação junta tem plenas condições de eleger, no mínimo, três vereadores. Estamos com uma meta de 44 candidaturas, no máximo, para inscrever, e temos 36 pré-candidaturas. Nossa meta é chegar até as convenções com os 44 inscritos para fortalecer nossa chapa. Ailton [Lopes] é pré-candidato. Apesar das divergências internas, comuns a qualquer partido, ele estará comprometido com nossa candidatura à majoritária. Renato [Roseno] é um dos quadros mais importantes não só do Psol, mas do parlamento cearense. O mais breve possível, ele já entra de forma mais definitiva.

O E. | De que divergências você fala?
T. N. | O partido tem aproximadamente 33 e 34 tendências. Renato [Roseno] faz parte de uma, Ailton [Lopes] de outra e eu de outra. Elas fazem um debate, que aponta como temos que intervir na realidade atual. Hoje, a ampla maioria do Psol vê como corretas as posturas que adotamos nos últimos períodos. Pela primeira vez, o Psol não teve candidato à Presidência [da República] para apoiar o Lula. Aqui no Ceará, 94% apoiaram que Adelita Monteiro desistisse [da candidatura ao Governo do Estado].

O E. | Qual será a postura do Psol se for necessário desistir de sua candidatura para apoiar um dos nomes já postos?
T. N. | Hoje, não vejo cenário para isso. Na nossa leitura, hoje o Psol e o grupo da esquerda têm um papel fundamental a cumprir nessas eleições, em que, dos três primeiros nas intenções de votos, dois e logo depois um que não está cristalizado. Depois, vem o PT e o [Eduardo] Girão, que aponta um cenário preocupante da força que tem a extrema-direita. Em Fortaleza, há um cenário que a gente não via há um tempo, mas você não pode ser uma esquerda que aposta no centro como alternativa. O PT está neste exato momento apontando para uma campanha mais ao centro. Se você tem uma eleição em que a extrema-direita tem muita força, o papel da esquerda não é apostar no centro, porque, quando você fortalece o centro, você aposta em um pólo à direita e deixa à esquerda no vácuo. Focar no debate à esquerda é o desafio do programa que nós vamos construir. Não consigo ver cenário em que o Psol, mais uma vez, vai abrir mão da sua candidatura. Acredito que a força das nossas ideias é grande e que a partir delas a gente vai conseguir angariar uma boa parte do eleitorado e crescer nessas pesquisas. A campanha está começando agora.

O E. | Quais são os principais problemas da Cidade, na sua leitura?
T. N. | Acho que é só você escutar a população. Não precisa de um grande instituto para saber quais os problemas da Cidade. Nasci e me criei na periferia de Fortaleza, na divisa entre a Granja Portugal e o Grande Bom Jardim. Isso para mim é muito significativo. Tenho isso como parâmetro. Trazer a periferia para o centro do debate é nossa prioridade. Passamos da hora de ter um governo que olhe para periferia só de quatro em quatro anos ou de vender uma peça publicitária mentirosa, como o prefeito, que teve a cara de pau de dizer que investiu mais no Conjunto Palmeiras 2 do que na Beira Mar. São duas Fortalezas. Quando você debate a periferia no centro do orçamento e começa a perceber a periferia como potencialidade e não como um problema social, consegue dirimir algumas questões que são estruturantes em uma sociedade. Tem um debate que está me incomodando, que é o da segurança pública sob vários aspectos. Primeiro, o prefeito diz que segurança não tem nada a ver com a Prefeitura. Tem tudo a ver com a Prefeitura. Esse debate hipócrita eu não vou aguentar e nem vou ficar calado. É papel da Prefeitura investir fundamentalmente na disputa do território, chegando com política pública social e efetiva que mude de fato a vida das pessoas. Quando você tem uma Prefeitura ausente do território, um estado ausente, você deixa o território livre para essas facções. É papel pensar politicamente e estrategicamente como disputar esse território com inteligência, que dá para usar a Guarda Municipal para isso, e com política social. Todos os estudos já comprovaram que segurança pública não se combate com mais armamentos. Do governo Cid [Gomes], passando pelo do Camilo [Santana] e agora do Elmano [de Freitas], o número de efetivo policial aumentou enormemente e não dá conta, porque o problema não está aí. Não é mais com efetivo policial na rua, tão somente.

O E. | Na Câmara dos Deputados, a comissão de segurança pública tem, basicamente, parlamentares do PL e do PP…
T. N. | A extrema-direita capturou o debate da segurança pública de uma forma triste. Eles capturaram o debate da segurança pública pela lógica do medo. Quando isso acontece, você despolitiza o problema. Nós temos, inclusive, senador da República nosso, do Ceará, [defendendo pauta da extrema-direita], que já fez a gente passar por dois processos vergonhosos. O primeiro foi fazer um discurso num inglês muito ‘mal dizido’ [sic] quando Elon Musk estava atacando a soberania nacional. Depois, uma cena vexatória para falar desse PL criminoso que é o 1904 (PL Antiaborto], que criminaliza as mulheres. Eu acho que temos outro recado para passar, que é o seguinte: não é a esquerda que tem que atualizar o seu debate como disse o governador Elmano. Não se trata disso. São as pessoas que governam que precisam atualizar o seu debate de segurança pública. Eu fico muito triste, como quem já perdeu três primos para essa lógica da violência. Nossa prioridade tem sido trazer a periferia pro centro do debate, e a partir daí discutir segurança pública, moradia, Meio Ambiente.

O E. | Você se coloca da “periferia”, mas nunca foi candidato. Os nomes sempre foram muito do espectro da classe média…
T. N. | Esse é o desafio da esquerda hoje. Você tem uma disputa ideológica ferrenha sendo feita via WhatsApp, Tik Tok, Instagram… Temos um desafio político: conectar esse eleitorado histórico do nosso partido que está nos redutos considerados médios com um eleitorado que está na camada popular, na periferia. O partido acha que eu tenho esse perfil. Às vezes, quando a gente [Psol] fala de racismo, falamos de forma complexa, difícil, usando linguagem às vezes acadêmica, e isso nos distancia daquele que mais sofre racismo, que é o negro pobre. Nosso desafio é só pensar em como chegar nesse eleitorado.

O E. | Como seria o seu diálogo com a Câmara?
T. N. | Seria o mais sério e honesto. O que eu não vou é apostar, que acho que é uma das coisas que mais fragilizam nossa democracia, nessa lógica de governança onde as pessoas têm que comprar vereador e vereadora para poder ter na base. Se a gente for eleito, seremos eleitos a partir de um programa de base popular, o que já tende a fazer uma pressão nos parlamentares. Qualquer parlamentar que queira se somar à base do governo para defender esse programa com eleitor nas ruas será super bem-vindo, mas aquele que não quiser vir tem que ter inclusive o direito republicano democrático de fazer oposição à gestão com aquilo que não concorda, e vida que segue. O recado que eu quero dizer é que nós não vamos governar a Cidade só com a Câmara de Vereadores, que claro será fundamental. A Câmara claro importa, tem o poder legitimado nas ruas, assim como a Câmara terá que respeitar a gestão.

O E. | Você, como produtor cultural, faz qual avaliação do nome de Luisa Cela como potencial candidata à pré-vice?
T. N. | A política de cultura do Governo do Estado nos últimos anos, e faço referência ao [ex-secretário] Fabiano Piúba, que está no Ministério [da Cultura], tem limites, como várias áreas, e todos os governos têm. Mas, sem dúvida, os últimos anos liderados pelo Piúba foram muito significativos. A Luisa Cela acho que conseguiu dar uma continuidade com vários limites. Também acho que ela teve pouco tempo pra resolver. Se ela tivesse passado os quatro anos na gestão, conseguiria ter avançado muito mais. Temos outros atores e atrizes para poder fazer esse debate de cultura. Vamos precisar das melhores mentes e ideias para conseguir revolucionar a política de cultura de Fortaleza. Do jeito que está não está dando. Uma das coisas que eu mais escuto na nossa turma que faz cultura na Cidade é que os editais são insuficientes. O Ceará é referência mundial, e temos a nossa galera daqui que tem potencial na veia que não consegue ser apoiado e ser merecedor de um bom cachê… Ao contrário: nesses momentos, era para apostarmos no nosso setor.

O. E. | Técio, porque você quer ser prefeito?
T. N. | Porque acho que está passando da hora da periferia ter o poder da nossa Cidade. A periferia não pode ser tratada como um problema da Cidade. Ela tem que ser tratada como potência. Eu acumulo a revolta e a tristeza desses que são acionados de quatro em quatro anos para votar naquele ‘vereadorzinho’ [sic] do bairro, no prefeito, que às vezes você nunca mais vai ver na vida. Carrego esse sonho de uma Fortaleza justa e igualitária. Quem mora na periferia ou já viveu nessa parte da Cidade já tentou de tudo, já viveu de tudo, já acreditou em tudo. Essa resiliência popular é muito emocionante e cativante, mas ao mesmo tempo a gente não pode ficar preso na esperança sobre a perspectiva do esperar, mas como Paulo Freire dizia: ‘Nós temos que esperar conjugar o verbo do esperançar, de fazer acontecer’. Eu carrego tudo isso.

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