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O Que Não Nos Disseram: exposição retrata mulheres que romperam ciclos de violência

sexta-feira, 12 de abril 2024

A violência contra a mulher existe de todas as formas e a todo momento, seja ela física, psicológica ou verbal. Segundo o boletim da Rede de Observatórios da Segurança, “Elas Vivem: Liberdade de Ser e Viver”, divulgado em março deste ano, revelou que, em 2023, 3.181 casos de violência contra a mulher foram registrados, fazendo com que a porcentagem aumentasse 22% com relação ao ano de 2022.


Além disso, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2023), no ano de 2022, houve o maior número de estupros da história, 74.930, onde 63,8% deles ocorreram na residência das vítimas. O combate à violência contra a mulher é muito mais discutido hoje em dia e é uma luta de todas. Em 2006, foi sancionada a Lei Maria da Penha, baseada na história da cearense Maria da Penha, que foi vítima de tentativa de feminicídio por parte do marido.


Visando devolver a autoestima e contar as histórias de superação de mulheres que foram vítimas de violência e conseguiram romper este ciclo, a jornalista Andressa Meireles, idealizou o projeto “O Que Não Nos Disseram”, onde ela também compartilha sua história pessoal, onde vivenciou episódios de violência doméstica. “O Que Não Nos Disseram” é uma oportunidade de ressignificação, uma forma de transformar a dor em força e amplificar vozes de outras mulheres que compartilham histórias parecidas, ainda que singulares”, afirma Andressa.

Andressa Meireles, jornalista e idealizadora do projeto “ O Que Não Nos Disseram”
Foto: Delfina Rocha

Uma das protagonistas da exposição deste ano é a chef de cozinha Pérola Sano. Ela por muito tempo foi vítima de violência psicológica, sofria humilhação no seu primeiro casamento. O comportamento do seu ex-companheiro sempre era de colocá-la para baixo, fazendo-a acreditar que outro homem não a aceitaria.


“No meu primeiro casamento eu sofria muito eu tinha muito preconceito com o meu corpo por conta de me colocarem para baixo o tempo todo eu sempre fui essa mulher gordinha farta linda que eu tenho certeza que sou, mas eu tinha um companheiro que fazia questão de me colocar para baixo e dizer que eu era muito gorda desajeitada que ia me vestia mal e que ele nem se preocupava porque homem nenhum ia olhar para mim não ia me querer só ele mesmo que tava fazendo este favor para mim caso eu viesse me separar dele eu ia ficar sozinha porque ninguém ia querer um”bucho” daquele palavras dele”, relata Pérola.

A Chefe de Cozinha, Pérola Sano sofreu violência psicológica por parte do seu ex
Foto: Marcela Müller


Fazendo parte do projeto desde sua criação em 2020, a convite da própria Andressa, a fotógrafa Camilla Almeida é uma das responsáveis por retratar essas mulheres guerreiras. Ela afirma que desde o início se emocionou com as histórias contadas. “Entrei na primeira edição em 2020 a convite da Andressa Meireles pelo meu trabalho em retratos. De início, me emocionei com o projeto e com a possibilidade de ouvir essas histórias e retratar da forma mais leve possível. Sem estigmatizar e seguir pelo caminho imagético do trauma, mas da superação e força dessas mulheres, apesar de tudo, conseguirem seguir, lutar e ser exemplo para tantas outras”, diz.


Para a Camilla, esta iniciativa tem um papel enorme na vida das mulheres, é por meio dele que muitas encontram apoio umas nas outras, e é por meio das partilhas que é possível reconhecer os sinais de abuso e violência que muitas vezes passam despercebidos. “Enorme. Pois a partir dele, conseguimos nos apoiar e nos reconhecer. Digo reconhecer, pois muitas vezes passamos por situações de abuso, principalmente em relações afetivas, que não conseguimos enxergar. E também para mulheres que estão passando por essas situações, verem que outras passaram, se recuperaram e poderem ser apoio umas às outras”, destaca a fotógrafa.

Camilla ainda afirma que é impossível conter as lágrimas nos cliques, vendo como as próprias mulheres se sentem ao serem retratadas, pois muitas vezes, as violências sofridas por elas são tantas, que as fazem esquecer de como são importantes e lindas. “Nessa última edição, filmamos parte do projeto em estúdio, com equipe técnica feminina, em luz baixa e com músicas que elas se sentiam representadas. Isso foi um pico de emoção para nós, que estávamos filmando, e para elas, que, para além das fotos, estavam falando sobre, a emoção foi inevitável. Toda a equipe se emocionou. E nas fotos não é diferente, fotografei em uma das edições uma pessoa que, ao ver a foto, me mandou uma mensagem linda sobre como ela se sentiu grandiosa e curada, em se ver retratada daquela maneira e com a imagem impressa gigante. Do tamanho que ela era”, diz.

História de
Kaianne Bezerra

A história da contadora Kaianne Bezerra, de 35, está sendo contada nesta edição por sua mãe Luciana e sua irmã Brenda. A jovem foi assassinada em setembro de 2023, o suspeito é o próprio marido com quem estava casada há 11 anos, mas o conhecia há 15. Segundo a irmã, poder participar deste projeto é uma forma de buscar justiça e encontrar apoio.


“Fazer parte do projeto está sendo acolhedor e transformador. Encontrar pessoas que carregam dores parecidas com a nossa cria uma rede de apoio e nos faz perceber o quanto somos fortes”, afirma Brenda.
Assim como no caso de Maria da Penha, o marido de Kaianne alegou que ela foi morta em um assalto. Entretanto, a motivação do crime seria o desejo de obter um seguro de vida no nome da esposa, no valor de R$ 90 mil.

Brenda e Luciana retratam a história de Kaianne assassinada em setembro de 2023 pelo marido
Foto: Thayná Silveira.

Sobre o projeto
Criado em 2020, o projeto “O Que Não Nos Disseram” já retratou a história de 35 mulheres, destacando as diversidades e idades, raça e classe social. A força da proposta reside na capacidade de apresentar outras perspectivas. Conforme Andressa, esse projeto é muito importante, pois busca quebrar estereótipos e reconectar-se com a própria identidade para além da violência sofrida, sem contar nas emoções presenciadas.


“Para mim, é de extrema importância, pois não existe uma distância emocional, pelo contrário, há uma entrega emocional completamente associada ao compromisso ético a responsabilidade de trazer esse assunto que é tão urgente, de maneira sensível, de maneira humana, de forma com que a gente possa de fato refletir a respeito das violências contra a mulheres e encontrar cada um de nós, nosso papel nesse enfrentamento. Então é muito emocionante, o coração acelera e a gente se emociona, sorri com quem está celebrando, chora com quem chora, porque são várias nuances de um assunto muito complexo”, explica Andressa.

Por Dalila Lima

Serviço

Lançamento da terceira edição da exposição “O Que Não Nos Disseram”

Local: Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS CE) – Av. Barão de Studart, 410, Meireles

Data: Sábado, 13 de abril, às 18h Período: Em cartaz até 12 de maio de 2024 Funcionamento: Quarta e quinta-feira, de 10h às 18h; e de sexta a domingo, de 13h às 20h.

Acesso gratuito

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