32 C°

.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

aniversario
aniversario

Mundo

Bienal de Veneza: Brasil é representado por artistas indígenas

sábado, 20 de abril 2024

Um menino na aldeia aponta a câmera para a lente que o enquadra, como se levantasse uma arma em sua defesa. E ali ele nos tem como alvo, os espectadores do filme. Esse breve momento da obra de Glicéria Tupinambá, uma entre os três artistas que ocupam o pavilhão brasileiro nesta Bienal de Veneza, sintetiza o que acontece aqui. Quem antes era olhado agora também olha, como sujeito –e também tem muita coisa a dizer, presa na garganta, de gritos de dor a gestos e palavras de força insuspeitada.

O garoto do filme, da mesma forma que outros jovens da aldeia, aprende a tecer redes de pesca, uma técnica que passa de geração em geração, a mesma que antes servia para tecer os vistosos mantos de plumas dos tupinambás.

No pavilhão, Glicéria montou uma grande rede envolvendo a projeção do filme, dois mantos que ela mesma costurou com a ajuda da família e estruturas vazias, os lugares para os mantos que ela chama de invisíveis. Nenhum dos mantos dos ancestrais sobreviveu no Brasil, e hoje há uma dezena deles em museus espalhados pela Europa. É como se a artista mostrasse aqui uma nova geração dessas peças para convocar quem vestiu aquelas que se foram.

Há um ano, Glicéria foi agente central na negociação que levou à devolução do manto tupinambá que estava havia mais de quatro séculos no Nationalmuseet, em Copenhague –neste ano, a peça deve enfim ser entregue ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, em processo de reconstrução depois do trágico incêndio de seis anos atrás.

Ela foge, no entanto, do calor das discussões acerca da repatriação de obras históricas que se perderam em processos de colonização, jogando outra luz sobre o debate. “Dizer que o manto foi roubado esconde a história”, ela diz. “A presença desses mantos mostra que houve uma presença dos indígenas aqui na Europa. Onde estão esses corpos? Isso é que os mantos me dizem.”

Nesse sentido, o trabalho de Glicéria opera em dois planos. No espiritual, que se cruza com seu pensamento estético, a artista idealiza os mantos como âncoras de seu território, terras sempre em disputa. No plano terreno, da política, ela também expõe uma troca de correspondências com diretores de museus que guardam outros mantos em seus acervos, pedindo que eles possam ser mostrados aqui.
Se essa é uma luta na arena burocrática das negociações envolvendo o patrimônio histórico, Glicéria enfrentou outra mais sangrenta, a briga pela própria terra na Bahia –ela conta que chegou a ser presa por alguns meses num dos desdobramentos no processo de demarcação, que ainda não aconteceu. “A gente tem uma luta constante pelo território.”

Não é uma história só dela. “Já vi muita gente da minha família morrer nesse processo de luta pela terra”, diz Olinda Tupinambá, outra das artistas que representa o Brasil em Veneza –esta, aliás, é a primeira vez que o pavilhão do país é ocupado só por artistas indígenas, numa mostra organizada também por indígenas. “Esse processo de colonização todo mundo viveu, mas essa hostilidade a gente ainda vive no Brasil. É barbárie mesmo, a gente está vivendo na extrema violência.”

hoje

Mais lidas

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com