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Mundo

Em meio a desconfiança, premiê do Haiti toma posse

quarta-feira, 21 de julho 2021

O novo primeiro-ministro do Haiti, Ariel Henry, 71, tomou posse nesta terça-feira (20), após quase duas semanas do assassinato do presidente Jovenel Moïse e da disputa por poder que se seguiu e em meio a um clima de desconfiança no país caribenho. No início de seu discurso, Henry pediu um minuto de silêncio em memória do presidente. Logo depois, desejou boa recuperação à mulher de Moïse, Martine, baleada na ocasião, e defendeu penas exemplares e dissuasivas aos autores de uma “prática bárbara” e que devem “pagar pelo crime”.

O novo premiê destacou o momento de crise sem precedentes no país e disse que “nunca mais devemos viver tal drama”. Avaliou que Moïse o nomeou não por avaliar que ele seja “um super homem, capaz de fazer milagres”, mas um “democrata e um homem de diálogo”. “É com muita humildade, sem pretensão, mas com muita determinação que aceitei essa missão.” Sobre a discutida solução para o país, Henry defendeu que ela deve ser feita por haitianos e para todos os haitianos, sem exceção, mas reconheceu ser uma crise multifacetada. Na questão da segurança, prometeu mais recursos para a polícia e para o Exército.

Já sobre a pandemia, falou rapidamente que o objetivo é ter vacina disponível para todos e agradeceu a ajuda da comunidade internacional –os EUA doaram 500 mil doses por meio do consórcio Covax Facility, da Organização Mundial da Saúde. E na questão central do momento, a crise política, Henry abordou a necessidade do diálogo. “[É preciso] Um acordo entre competidores, pois a disputa interminável não leva a nada”, disse. “Os interesses seus e do país pedem um compromisso, uma mudança de paradigma.”

Eleições
Vagamente, o novo premiê abordou a realização de eleições que incluam a maior parcela possível de haitianos aptos a votar. “Nosso sistema eleitoral será credível, honesto e transparente e irá garantir que ninguém será favorecido.” Ao finalizar sua fala, Henry agradeceu os novos ministros por aceitarem integrar um “governo consensual e inclusivo”. Já em sua fala de saída, Claude Joseph usou palavras como coragem e patriotismo para falar da atuação nas duas últimas semanas e agradeceu seu governo e a polícia haitiana pelo trabalho no momento de crise.

O agora ex-premiê defendeu o acordo político e um diálogo amplo e sincero para estabelecer um “clima de apaziguamento político”. Também cobrou que é preciso levar a cabo a investigação do assassinato do “meu amigo” Moïse. Neurocirurgião e ex-ministro do Interior e de Assuntos Sociais (2015-16), Henry havia sido nomeado por Moïse para assumir o cargo -o sétimo de seu mandato. No dia em que deveria tomar posse, no entanto, o presidente foi assassinado, e o então titular, Claude Joseph, permaneceu no cargo interinamente.

Com a chegada de Henry, Joseph, no entanto, não deixa completamente o círculo de poder. Entre os 18 ministros anunciados, ele se mantém no comando da pasta de Relações Exteriores e Cultos. Essa dita continuidade -até porque ambos foram nomeados por Moïse- desagradou a oposição, e a posse do novo premiê não significará um apaziguamento na acirrada crise política, que vinha antes mesmo da morte do presidente. Apesar das promessas do novo premiê, a oposição se mostra desconfiada e acredita que suas escolhas para o governo não refletem um espírito de consenso, que deve ser selado em um acordo político.

Oposição
Porta-voz da coalizão de oposição Setor Democrático e Popular Nacional, And´re Michel havia dito, antes mesmo da posse, que Henry não possuía disposições legais e constitucionais para montar um governo, segundo o jornal haitiano AlterPresse. “A comunidade internacional está pegando o caminho errado. É preciso um grande consenso, associado a um acordo político, para sair do impasse atual.” Entre a sociedade civil haitiana, a troca de poder também não é bem-vinda. A economista Emmnauella Doyoun, do coletivo Nou pap dòm, vê a nova equipe como uma “piada ruim”, segundo o AlterPresse. “Os coveiros da República já estão prontos para seguir sua obra. É preciso realmente odiar o Haiti para apoiar esse procedimento imundo”, escreveu em seu Twitter. A organização faz parte de uma comissão da sociedade civil haitiana que busca uma solução dentro do próprio país para a crise.

O Haiti já enfrentava dificuldades mesmo antes da morte de Moïse, mas seu assassinato acirrou a crise política, que tinha no centro da disputa uma discussão sobre o término do mandato presidencial. Moïse foi eleito em 2015 e deveria ter tomado posse em 7 de fevereiro de 2016 para um mandato de cinco anos. Em meio a acusações de fraudes, porém, o pleito foi anulado e teve que ser refeito no ano seguinte. Durante esse período, o país foi comandado por um governo interino. Ele saiu vencedor na nova votação e assumiu o comando do Haiti em 7 de fevereiro de 2017. Como o mandato presidencial no país é de cinco anos, ele alegava que deveria permanecer no cargo até fevereiro de 2022, portanto -uma alegação apoiada pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e pelos EUA. A oposição, porém, defendia que seu mandato deveria ter se encerrado em fevereiro deste ano.

Em meio a essa discussão, o presidente então suspendeu as eleições de meio de mandato, o que deixou vagos dois terços do Senado, toda a Câmara dos Deputados e todos os prefeitos. Assim, Moïse passou a comandar o país via decretos -o que rendeu uma onda de protestos contra o governo e acusações de autoritarismo. Após o crime, Joseph assumiu o comando do país e declarou estado de sítio durante duas semanas, medida que ampliou os poderes do Executivo. De início, ele teve respaldo da ONU e dos EUA para assumir o comando do país, mas no sábado (17) o Core Group, que reúne embaixadores estrangeiros, mudou de posição e defendeu a formação de um governo consensual e inclusivo.

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