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Manifestantes desafiam polícia e apoiam opositor de Putin

quinta-feira, 22 de abril 2021

Algumas horas após o presidente Vladimir Putin fazer o discurso anual do Estado da Nação, ruas das principais cidades russas foram tomadas por manifestantes em apoio ao líder opositor Alexei Navalni. Os atos, a julgar por relatos de jornalistas independentes e vídeos em redes sociais, levaram muitas pessoas às ruas -não tanto quanto no começo do ano, quando Navalni foi detido ao voltar da Alemanha ao país, mas de forma notável dada a proibição total da realização dos protestos.


A polícia de Moscou estimou em 6.000 os manifestantes no centro da cidade, em marcha, e em 4.500 no ato em São Petersburgo. Segundo os organizadores virtuais do manifesto, foram dezenas de milhares. A repressão foi relativamente contida, em comparação com os protestos de fevereiro. Segundo o monitor de direitos humanos OVD-Info, até as 22h40 locais (16h40 em Brasília) havia 1.004 presos em todo o país.
Navalni foi detido em 17 de janeiro, quando aterrissou em Moscou vindo da Alemanha, onde se tratou de um caso grave de envenenamento. Ele acusa o FSB, o serviço secreto russo, de ter promovido o ataque com o agente neurotóxico Novitchok (novato), em agosto de 2020, enquanto ele trabalhava em dossiês contra políticos alinhados ao Kremlin em Tomsk (Sibéria). Putin nega envolvimento e já brincou sobre o tema, dizendo que, se o FSB quisesse matar o ativista, o teria feito. Ainda assim, o Judiciário russo, alinhado ao Kremlin, manteve Navalni preso por ter violado uma condicional -ele havia recebido uma sentença suspensa por fraude, que ele diz ser forjada. Ele terá de completar mais dois anos e meio de sua pena. Houve grandes protestos em janeiro e fevereiro na Rússia contra a prisão, mas a repressão a seguir tirou fôlego dos manifestantes.


Com a saúde debilitada, ele começou uma greve de fome há 21 dias e, nesta semana, foi levado a um hospital para tratamento. Seus advogados consideram que ele corre o risco de morrer. “Não temos direito de vê-lo”, disse sua porta-voz, Kira Iarmich, em postagem de redes sociais. Na manhã desta quarta (21), ela foi detida sob a acusação de promover os atos em favor de Navalni. Na Rússia, protesto sem autorização do governo local é motivo para processo judicial. Ela estava em casa, em prisão domiciliar. Para os opositores do Kremlin, o fato de terem conseguido fazer o protesto já é uma vitória. O governo iniciou uma campanha na semana passada para tornar ilegais as ONGs associadas a Navalni, a começar pelo seu Fundo Anticorrupção. Baseado no YouTube e em outras plataformas digitais, o fundo tem feito campanha sistemática de denúncias de casos de desvio e abusos por parte do Kremlin.

Duvidosas
Jornalisticamente, usualmente são peças duvidosas, mas logram grandes audiências por tocarem em algo que é visto como lugar comum na classe média russa: a corrupção endêmica em várias esferas de poder. Desde 2017, Navalni vem atraindo uma audiência jovem para protestos no estilo “flash mob”, rápidos, mas a tática evoluiu para grandes atos espalhados pelo país -algo que nenhum de seus antecessores, como o enxadrista Garry Kasparov, havia conseguido. Na capital russa, os atos se concentraram no centro da cidade. Na segunda maior cidade do país, São Petersburgo, a polícia interveio com gás lacrimogêneo. Houve protestos em locais distantes, como Vladivostok, sete fusos horários à frente de Moscou.


Putin, em seu discurso, não citou Navalni. O presidente americano, Joe Biden, já determinou sanções a pessoas envolvidas com a prisão do ativista, e o Departamento de Estado dos EUA afirmou na segunda-feira (19) que “haverá consequências” caso ele morra na cadeia. De forma paradoxal, Navalni não é um herói popular russo. Sua aprovação sempre ficou abaixo dos 5%, segundo institutos independentes de pesquisa. Mas ele aposta na catalisação do sentimento anti-Putin a partir do trabalho em eleições locais, o que já deu certo parcialmente, e visava mexer com o establishment no pleito parlamentar de setembro.

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