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Opinião

1964: O golpe do atraso

quarta-feira, 03 de abril 2024

Completou-se, nesta segunda-feira, 01/04/2024, exatos sessenta anos do famigerado golpe político – militar, que implantou no País uma ferrenha ditadura por 21 longos anos, deixando profundas marcas. Período no qual a sociedade brasileira padeceu de um impiedoso arbítrio, com agudo cerceamento de liberdades e de direitos humanos e políticos, impostos com extrema violência, mediante perseguições, prisões, torturas e execuções de muitos daqueles que dela se opunham. Não obstante essa brutal realidade, há ainda, extravagantemente, os que sustentam que o regime legou pontos positivos – pura ilusão. Entre os argumentos mais utilizados está a conquista do chamado “milagre econômico”, que ocorreu no Brasil entre 1968 e 1973. De fato, nesta época, o país conseguiu crescer exponencialmente, cerca de 10% ao ano, e atingiu, em 1973, uma marca recorde do Produto Interno Bruto (PIB), que aumentou 14%. A melhora na atividade econômica se explicava por uma conjuntura mundial mais favorável, que permitiu crédito externo farto e barato. Portanto, o dito “milagre” aconteceu principalmente regado a dinheiro internacional que aterrissou através de multinacionais que encontraram no Brasil um terreno propício para a expansão sob a tutela dos militares. Era um ambiente oposto ao do período anterior, quando a grande convulsão política, em plena guerra fria, tornava o ambiente econômico incerto. Contudo, a distribuição dos resultados do crescimento econômico foi bastante desigual, a concentração de renda também aumentou muito no período, especialmente entre a população que possuía um grau maior de instrução. Isso fez com que a desigualdade social conhecesse níveis nunca vistos antes. Em 1960, antes da ditadura, o índice de Gini, utilizado para medir a concentração de renda estava em 0,54 e pulou para 0,63 em 1977. Também se enaltecem as obras de infraestrutura implantadas no período. De fato, a malha rodoviária multiplicou-se em mais de 250% durante a ditadura de 64, que também foi responsável por 20 das 23 maiores hidrelétricas do país hoje, a despeito de seu nulo respeito por questões ambientais (típico de ditaduras, que o diga a União Soviética e as dezenas de reatores nucleares simplesmente jogados no oceano). Entretanto, a construção do desenvolvimento é muito mais do que tocar obras. É um processo longo e pouco aparente, que busca aliar condições materiais com a valorização do indivíduo e do conhecimento. O regime militar desprezava a criatividade do brasileiro e o investimento em educação. Durante o período da ditadura os gastos com educação diminuíram de 7,8% para 5% do PIB. A média de tempo de escolaridade era de 2,6 anos ao final dos anos 70. O que representa cerca um terço da atual, na ainda sucateada educação brasileira. No mesmo período, apenas para ficarmos em um exemplo, o Brasil viu a Coreia do Sul saltar de menos da metade do nosso PIB per capita para uma riqueza média 50% maior do que a nossa, em um processo fortemente calcado em educação. O modelo econômico, que tinha no economista e ex – ministro da Fazenda e do Planejamento, Delfim Netto, como grande artífice, alavancava o crescimento pelo financiamento maciço do setor privado e crescimento exponencial dos gastos públicos. Quando fomos pegos subitamente pela crise do Petróleo, que mingou nos reservas nos anos 70, a saída encontrada foi a emissão de moeda e estouro do endividamento. Em suma, terminamos o regime militar devendo até a alma, e chegamos a 1985 prestes a declarar moratória e com uma das maiores inflações do planeta. Resultando em mais pobreza, recessão e desemprego. Assim, compatriotas, a crença de que o regime militar fez bem ao Brasil é uma mentira deslavada. Nunca podemos esquecer que ditatura é um mal em si mesmo, em todos os aspectos. A democracia é inegociável.

JOSÉ MARIA PHILOMENO
ADVOGADO
E ECONOMISTA

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