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Opinião

Memórias de maio

quarta-feira, 29 de maio 2024

Quando minha avó materna era viva, sempre nos meses de maio ela e uma amiga de igreja saíam pela vizinhança programando o dia em que em cada casa aconteceria o terço. Algumas vezes fui junto com elas. A amiga da vó com uma agenda, acertando datas, combinando, registrando os dias.
Algumas datas já eram certas. Na minha casa o terço sempre era na data de nascimento da minha avó paterna (não cheguei a conhecê-la). Dia 31 ocorria a coroação da imagem de Nossa Senhora, data marcada para a casa da amiga parceira de reza da vó.
Toda noite geralmente alguma criança levava a imagem de Nossa Senhora de Fátima (sob o cântico de A treze de maio) até a casa onde seria rezado o terço, aclamado e lido o evangelho do dia, cantada a longa ladainha. Por falar em ladainha, que era longa e cantada como eu já disse, um ano resolvi facilitar para as rezadeiras. Fui na internet, copiei de algum site, colei no word, fiz uma arte mixuruca para embelezar o papel, imprimi várias cópias e distribuí para que acompanhassem, lendo, rezando e cantando. Às vezes, nós crianças que acompanhávamos o cortejo religioso, esperávamos ansiosamente o momento de rezas e cânticos desafinados chegar ao fim para finalmente comermos salgadinhos, bolos e sobremesas que eram oferecidos em algumas casas aos presentes.
A santa passava a noite e o dia na casa do morador que aceitava a cerimônia até chegar o horário marcado para que minha avó, a amiga e outras moradoras da vizinhança fossem buscá-la para levar para outra casa. Vela acesa, era feita uma oração de despedida. Em casos excepcionais em que tivesse surgido algo inesperado e que o morador não pudesse estar disponível no horário noturno, a retirada era feita solitariamente pela piedosa companheira da vovó
A imagem assistia o cotidiano da casa, da família. Deve ter visto casais brigando, filhos desobedecendo aos pais, cenas não muito católicas.
Muitas vezes carreguei a imagem, que ficava numa espécie de suporte de ferro. Era bem trabalhada. A santa tinha feições europeias, nariz fino, pele alva. Mãos postas e belos olhos observadores. Com todo cuidado, eu conduzia o oratório pelas ruas, à frente da pequena procissão que cantava hinos marianos.
Do dia 1º ao dia 31, as noites do mês de maio estavam ocupadas pela programação religiosa. Nada de brincar pela rua, inventar outra coisa no horário ou faltar ao terço. Antes das sete da noite, banho tomado, roupa decente vestida, cabelos bem penteados e disposição para carregar a santa, cantar ave, ave Maria, ceder lugar para a velharia sentar, ler na bíblia o evangelho, rezar a ladainha (rogai por nós, rogai por nós!) e comer o que com sorte era servido.

FELIPE AUGUSTO FERREIRA FEIJÃO
PROFESSOR E
MESTRE EM FILOSOFIA

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