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Opinião

No livro a treva aprende a ser luz

sexta-feira, 26 de abril 2024

Em 1987 enviei à Secretaria de Cultura, Turismo e Desporto do Estado os originais de um livrinho de poemas subordinado ao título “Poemas de Longo Apelo”. O secretário, bom amigo Barros Pinho, estranhou aqueles originais limpos e secos, sem biografia do autor, sem prefácio, sem “orelhas”, sem nada. Cobrou-me um floreadozinho, ao menos uma notinha biográfica do autor. Naquele momento eu estava preocupado em mudar o mundo na prática, a partir da militância política. Para não decepcionar o Barros Pinho, enviei-lhe provavelmente a mais sucinta autobiografia de um poeta: “Nasci nos sertões adustos/ Da minha velha Mombaça,/ A parteira disse logo/ Que nasci pra tirar raça:/ Sou formado em Poesia/ E doutorado em cachaça.”
Nascido nos cafundós do Judas, criado no roçado, último filho (adotado) de uma família de dezesseis, eu só fui à escola aos 8 anos de idade, quando já residia em Cedro, “porta de acesso ao ubérrimo Vale do Cariri”. Porém, ainda bem não nascera os dentes e minha mãe adotiva, auto-alfabetiazada, já punha uma Carta de ABC nas minhas mãos. Mais taludo, lá pelos meados de 1960, era obrigado a ouvi-la ler uma História Sagrada editada pela VOZES, cujo exemplar ainda hoje guardo comigo como herança de valor inestimável. Ao depois, já entrado nas primeiras letras fui convidado a ser o leitor diário de folhetos de literatura de cordel, que aprendi a fazê-lo com toada própria dos vendedores de feira, a tornar mais amenas as noites mornas num lar em que, felizmente, não tinha rádio nem televisão. Vem, portanto, daquela tenra idade o gosto pela leitura que, num primeiro momento imposta pela decisão materna, depois transformou-se em prazer insuperável.
Em face dos altos e baixos de leituras sem método, mercê de uma rebeldia e indisciplina que me não permitiam um ajustamento à escola regular, e em razão de intempéries da vida, eu poderei dizer com Jackson de Figueiredo, sobretudo no quesito da filosofia política, que “os livros foram o alívio dessa infância incompreendida e infeliz, apesar do amor infinito dos meus pais. Mas, os livros, durante muito tempo, máxime os que me foram companheiros na adolescência, contribuíram ainda mais para minha infelicidade…” Foi nesse período que eu, de par com incipientes leituras religiosas, mergulhei em filosofias que em nada contribuíram para a formação intelectual de alguém que desejava mudar o mundo para melhor. Graciliano Ramos, José Lins do Rego e, em especial, Jorge Amado eram os meus ídolos em literatura. Leituras à granel. Por intermédio de Amado, que conheci anos depois e com quem mantive breve correspondência, cheguei às cabeças coroadas do marxismo-leninismo o que, a exemplo de muitos outros colegas, nos deixaram com o corpo no século XX e a cabeça na Comuna de Paris. Na melhor das hipóteses em Sierra Maestra. Transferido para Fortaleza, as más influências bibliográficas se ampliaram. Um desastre! Quase uma desgraça!
Não estranhe o leitor as duras interjeições. O Jorge Amado daqueles dias, cujo estágio político a minha ingenuidade não alcançava, já se dispusera a abandonar o socialismo real em que fora de tempo adentrávamos, como se fosse uma recente maravilha para salvar o mundo. Tenho em minha biblioteca o livro “O Mundo da Paz” (Editorial Vitória, RJ, 1951), no qual o romancista baiano tece exageradas loas ao comunismo soviético e ao stalinismo. Envergonhado da “fake news”, depois da publicação do “Relatório Kruschev”, Jorge Amado proibiu reedição da malsinada obra que tantos jovens desencaminhou. É certo que não me sinto ludibriado pelos livros que li, mas pelos influenciadores. Todavia, considero que, paradoxalmente, foi no processo de amadurecimento como leitor atento que compara a teoria com a prática, que me desvencilhei do seguimento revolucionário e enveredei por outros caminhos de leitura e estudo. Ao me lembrar desse período em minha vida, compreendo Santo Anselmo ao cuidar da doutrina cristã transmitida pela leitura sem orientação: “Colocar os livros nas mãos de um ignorante é tão perigoso quanto colocar uma espada nas mãos de uma criança.”
Para além dos meus descompassos de leitor e de autodidata, tudo o que até aqui vivi, é graças aos livros que bem vivi. O livro é o mais importante instrumento de libertação do pobre. Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem é o mais espetacular, diz Borges. Igualmente ao velho “Brujo” a quem injustamente foi negado o Prêmio Nobel de Literatura, não posso imaginar minha vida sem os livros, os quais não me são menos íntimos do que minhas mãos e meus olhos. Não desdenho, mas não aprecio os virtuais. Gosto do manuseio e do cheiro do papel impresso. Como os vinhos raros, quanto mais velho mais fragrância emana para o meu olfato livresco. Deve-se pegar um livro antigo com a mesma delicadeza com que se acaricia a mulher amada, a musa que nos inspira. Importa vê-la desabrochar como uma flor de lótus. Assim também o livro. Fechado – é ainda Borges quem o diz – não passa de um símbolo morto. “Quando o lemos acontece uma coisa rara: creio que ele muda a cada instante.” Eis uma iluminação que transcende o simples manusear de um objeto.
Deus, em sua onipotência e onisciência, poderia ter-se revelado aos homens de várias maneiras. No entanto, as mais importantes religiões da humanidade (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) receberam a Revelação por intermédio da Palavra escrita, o livro. Aos que assim crêem chamamos Povos do Livro. No Islam, a radicalidade é bem maior quanto ao respeito ao Corão, o Livro Sagrado dos Muçulmanos. Enquanto os cristãos cremos que Cristo é Deus encarnado, no Islã pode-se aceitar com acerto que o Corão é “Deus enlivrado”. Enquanto entre nós “o Verbo se fez carne”, para o muçulmano a Palavra se “enlivrou” no Corão. E o milagre se constata porque o Profeta Maomé não sabia ler nem escrever, de modo que desconhecia os livros antigos. (Cf. MAOMÉ, de Annemarie Schmmell, in “Os fundadores das Grandes Religiões, org. Emma Brunner-Traut. Editora Vozes, 2ª. Edição, Petrópolis-RJ, 2000, pág. 133ss).
Sempre que me é dado discorrer sobre livros, vem à memória os versos do poeta paranaense Corrêa Júnior, que aprendi na meninice e que ao longo do tempo me dão a certeza de que a companhia dos livros é vivificante: “O livro, sincero amigo,/ Tem sempre aberto um abrigo,/ Que à bondade nos conduz./ É nele que a dor se cala,/ Onde apenas o saber fala/ E a treva aprende a ser luz!”

BARROS ALVES
JORNALISTA, POETA E ASSESSOR PARLAMENTAR

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