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Opinião

O cavalo ilhado

quarta-feira, 15 de maio 2024

Precisamos de símbolos. O homem foi definido como animal simbólico pelo filósofo Ernst Cassirer. Talvez o cavalo (não se tratava de uma égua como se pensou inicialmente) Caramelo, como foi batizado, fique como um dos símbolos dos horrores que acontecem no Rio Grande do Sul. O vira-lata caramelo, presente em todos os lugares, já é um conhecido representante da brasilidade.
A imagem de um animal de grande porte em cima do telhado de uma casa ilhada, resistindo por quatro dias, até que fosse felizmente resgatado é tão incomum quanto o que assola agora o estado gaúcho.
À primeira vista poderia parecer uma montagem, um meme. É claro que seria algo desrespeitoso para com a situação e com o povo que sofre, produzir uma mentira relacionada ao caos atual. Mas não são poucas as fake news que circulam sobre feitos e desfeitos no Rio Grande do Sul. Eles não se contentam com o cotidiano, ou com as eleições. Parece que a crueldade da turma produtora de mentiras não tem limites, desconhece a dor, o sofrimento, o desespero. Faz parte do universo dessa mesma turma o negacionismo, os que dizem não haver aquecimento global.
O episódio do Caramelo nos faz lembrar que a fauna e a flora também estão sofrendo diante das enchentes, das inundações, das invasões da água. No RS, tantos cães em abrigos, refugiados. Vários foram os vídeos que comoveram as redes sociais com cachorrinhos em resgate. É difícil acreditar que a tragédia seja apenas natural, somente por causa das chuvas. Há certamente parcela de culpa humana, culpa política. Era previsível?
Uma multidão de pessoas foi afetada, teve que deixar suas casas, seus pertences, ficando sem o que construiu durante a vida toda. Muitos mortos e desaparecidos. Onde a água baixou, apareceu o que estava submergido: a imagem de carros amarronzados pela água seria mais crível se fosse cena de um filme. E a natureza também padece. Diante da agonia ela tende a reagir, a responder. Se é tratada com exploração, com extração, com negligência e selvageria, reage como já está reagindo com acontecimentos extremos. Qual será o próximo evento catastrófico?
Infelizmente, podemos assistir ao que nunca aconteceu antes por ser improvável e inimaginável, com cada vez mais frequência. Qual será a próxima cidade, o próximo estado afetado pela soma de fatores naturais e humanos? O planeta, nossa “casa comum”, como chama o Papa Francisco, “geme e sofre dores de parto” (Romanos 8, 22).

FELIPE AUGUSTO FERREIRA FEIJÃO
PROFESSOR E
MESTRE EM FILOSOFIA

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