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Opinião

O navio encalhado

quarta-feira, 20 de março 2024

Ele já faz parte da paisagem da orla da cidade. Há décadas encalhado, deve já constar no imaginário fortalezense. É como se os bancos de areia do mar onde exatamente se situa o prendessem, como integrante do ambiente. De vez em quando, aventureiros aquáticos vão até perto dele, rondam-no com curiosidade, talvez na esperança de encontrar algo que não é avistado de longe. Teria o navio um tesouro? Difícil. Já há tantos anos estacionado nas águas pacíficas e revoltas dos verdes mares, o que supostamente guardasse de precioso, o oceano daria conta de arrastar para local mais longínquo, para suas profundezas obscuras.
A vida marinha deve estar acostumada ao que no passado era um objeto estanho. A diversidade de animais que vivem em torno do conhecido navio deve já desviar dele quando o avista, quando o sente pelo percurso. Em 1985, deu-se o afundamento do petroleiro, que teve como causa problemas mecânicos em seu rebocador.
Por esses dias, o velho Mara Hope foi notícia. Não sua cor de ferrugem, seu avançado estado de decomposição, ou o motivo pelo qual há muito tempo jaz impávido a marcar território sob a vista de quem por ali passa e o observa como notável estátua marítima. O fato foi que um novo pedaço de sua desgastada estrutura se desprendeu, indo a boiar em sua proximidade.
Curioso o formato do pedaço que pendeu, antes participante do que ainda resta da antiga embarcação. O que se soltou da carcaça enferrujada foi uma espécie de rampa. Um corajoso nadador que chegasse até esta parte, numa suposição, que conseguisse nela subir, poderia descer pelo declínio e adentrar novamente na água, ou dar um salto do perímetro reto direto no mar.
Um dia, quem sabe, o que ainda sobra do navio desaparecerá, será corroído pelo forte sol e engolido definitivamente pelas águas salgadas, submergindo derradeiramente às escondidas dos olhos que alcançaram sua existência e sendo apenas imaginado pelas gerações futuras. E aquele pedaço de mar, distante apenas algumas centenas de metros da terra, carregará um desfalque.

FELIPE AUGUSTO FERREIRA FEIJÃO
PROFESSOR

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