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terça-feira, 30 de novembro de 2021.
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Opinião

Os vencedores

Maria Ressa, filipina, Dmitry Muratov, russo e Abdulrazak Gurnah, tanzaniano. Os dois primeiros, jornalistas vencedores do Nobel da Paz e o último vencedor do de literatura deste ano. Os jornalistas são de oposição em seus países. Maria enfrenta o duro governo filipino, com risco de prisão e uma avalanche de ataques nas redes e Dmitry, é crítico de Putin, e vários jornalistas amigos dele de redação já foram mortos. Abdulrazak, refugiado há anos no Reino Unido, é autor de romances sobre o colonialismo.

Essas premiações são polêmicas. Há quem defenda que muitos não foram laureados com as distinções devidas e infelizmente não mais serão porque já morreram. Há quem não veja necessidade de receber tais honrarias para que se exerça bom, pleno e destacado exercício nas mais diferentes áreas. Fato é que elas existem e o Nobel, em questão, possui fama histórica e mundial. Agora os vencedores terão maior reputação, maior prestígio e – quem sabe? – Maria poderá rodar o mundo sem impedimento e as violências contra ela diminuirão. E – quem sabe, também? – o escritor africano será traduzido aqui.

O comitê do Nobel parece ter apontado para a questão da liberdade de expressão em governos que não se dão lá muito bem com os profissionais da mídia. Coisa não muito distante da nossa realidade brasileira. Não são poucos os ataques sofridos pelos que têm a coragem de se expor diante de câmeras, ou em matérias escritas. E, quando os fatos, quando a verdade, para alguns, se torna inaceitável, eles ainda precisam lidar com as fake news propagadas pela turba raivosa. Esses mesmos propagadores de mentiras louvam e se utilizam da liberdade de expressão, que, por vezes atacam, ao testarem seu próprio limite.

O vencedor da premiação em literatura faz pensar em como conhecemos pouco. Em como nos fechamos em nosso mundo de leituras e ficamos nele, até que surja, o que certamente em breve ocorrerá, uma tradução de um romance da autoria de um longínquo estrangeiro, distante de nós física e culturalmente, mas esplêndido no manejar das palavras, que cumpre muito bem a atividade de transformação da palavra em arte.

A escolha do nome foi uma surpresa. Outros conhecidos foram aventados. Mas quem levou foi um, para nós, desconhecido. Um nativo da África, continente oprimido e esquecido, que recorreu a outro país para sobreviver e que, segundo comentam, retrata os dramas da opressão, da dominação de uns sobre outros.

E juntando o trio, pensamos: quantos jornalistas e escritores seguem em seus ofícios, atacados, incompreendidos, ameaçados, não publicados, rejeitados, dando voz aos sem voz, aos que se calaram de vez, aos que correm iminente risco e aos que tem a voz sufocada pelas mais diferentes formas de violência e opressão, sem ganhar prêmios.

FELIPE AUGUSTO FERREIRA FEIJÃO
GRADUADO EM FILOSOFIAE ESCRITOR

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