32 C°

.
Fortaleza, Ceará, Brasil.

aniversario
aniversario

Opinião

Um país dividido

quarta-feira, 17 de setembro 2008

Se um dia me pedissem para falar da Bélgica, iria recusar, mas sem ofensa alguma, e sim apenas por crer na incapacidade de me exprimir à altura do que deveria; não seria capaz de descrever a sensação de estar nas ruas tortuosas e escuras da Cidade Velha, que desembocam todas, famintas, na Praça Grande, a Grand Place, onde se erguem algumas das construções mais surpreendentes do país. A torre gótica da prefeitura, iluminada à noite, parece um sonho ao alcance da mão menos afeita a elaborar visões romantizadas da vida.

Igualmente não saberia explicar a sensação causada diante do espanto de ver todas as ruas, logradouros e monumentos públicos sinalizados em dois idiomas, um abaixo do outro, ou melhor, um ao lado do outro… É que isso, em terras belgas, poderia causar certo embaraço. Explico: dividida pelos flamengos, que habitam o norte deste pequeno país (falantes, é claro, da língua flamenga), e os valões, ao sul (ligados culturalmente à França), a Bélgica é um país dividido.

Embora esta divisão lingüística e cultural faça dela um único país, flamengos e valões vivem numa atmosfera às vezes nem tão cordial, e qualquer prioridade a uma das línguas por meio do poder público pode ser considerada insulto pela outra parte do todo.

De qualquer forma, viajantes desavisados irão perder-se nos caminhos desse labirinto: em Flandres (terra dos flamengos), muitas placas na estrada trazem apenas os nomes das cidades na língua local, de modo que quem fala francês não poderá descobrir nunca que aquela direção onde se lê Luik faz referência, nada mais nada menos, à antiga cidade de Louvain, como é chamada em língua francesa.

Como eu dizia, se um dia me pedissem para falar da Bélgica, iria recusar. Quem iria acreditar que em Bruxelas, sua capital e também capital da Europa (o parlamento da Comunidade Européia está instalado lá), existe uma fonte em forma de um menino de bronze que urina potente jato de água, indiferente aos passantes? E mais: é costume nestas terras presentear a estátua com roupas nobres, e existe até mesmo um museu dedicado exclusivamente à guarda destas régias vestimentas – que nunca, claro, irão servir ao seu propósito original.

Talvez aí estivesse a explicação para o fato de esta terra ser conhecida como a do surrealismo e, sem a força de nenhuma coincidência, não é à toa que grande museu está sendo criado para acolher as obras de Magritte, perto do antigo Palácio Real. O sopro do autor do famoso quadro surrealista onde se vê um cachimbo com a inscrição “Isto não é um cachimbo” parece pairar entre as pedras das centenárias construções de Bruxelas.

Me recuso a falar desse país dividido, pois. Quem iria acreditar em mim quando eu contasse que, ao tomar o bonde em companhia de Brigitte Bodger, uma de minhas anfitriãs na Bélgica, um senhor louco iria sentar-se no banco à nossa frente, cachimbo na mão, e dizer-nos, sem nunca nos ter visto em toda a vida: “Cumprimentem o primeiro ministro!”

O senhor a quem ele fez referência nada mais era que um homem de paletó, nas poltronas ao lado da nossa, que riu, constrangido, ante o riso dos demais. Acabei compartilhando da imaginação do outro: “Não o cumprimentamos porque não gostamos do poder, na verdade gostamos de Magritte”… Ele fez um olhar contrito, pareceu compreender.

E assim a atmosfera surreal de Bruxelas vai passando das telas dos quadros para uma realidade palpável. Bem notei que, nesta cidade inacreditável, os bondes são condutores de cenas tão inesperadas quanto cômicas, tal o espírito belga. Outro dia, mais uma vez a caminho da Praça Grande, o bonde surpreendeu os passageiros com um movimento brusco, fazendo uma bela estudante loira cair no colo de senhor de aspecto respeitável que, com a moça caída sobre seu corpo, às gargalhadas, replicou: “Não fiz de propósito mas foi muito agradável…”
Como falei anteriormente (e dessa vez não mais repito), por esses e muitos outros motivos, se um dia me pedissem para falar da Bélgica, está claro: iria recusar…

hoje

Mais lidas

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com