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Política

André Fernandes aposta em tom belicoso e exalta pré-candidatura de extrema-direita

sexta-feira, 28 de junho 2024

Deputado federal diz que está satisfeito pelo PL estar até o momento sozinho na disputa, defende novo modelo de gestão e critica Sarto e Capitão Wagner

Por Gabriela de Palhano e Kelly Hekally

André Fernandes (PL) foi deputado estadual e agora é deputado federal, eleito em 2022 / Fotos: Dalila Lima / O Estado

Pela primeira vez pré-candidato à Prefeitura de Fortaleza, André Fernandes (PL) é o quarto entrevistado da Série Eleições 2024, do jornal O Estado. Na conversa de cerca de 40 minutos, marcada pelo estridente tom de voz do deputado federal, pautas que vão desde planos para a Capital a valores pessoais.

Terceiro colocado em pesquisas de intenções de votos para o Paço Municipal, o parlamentar calcula o peso de seu estilo bélico no falar quando questionado sobre uma eventual gestão e sinaliza articulação com opositores políticos.

Com críticas ao prefeito José Sarto (PDT), André Fernandes pontua que o serviço público de saúde precisa de mudanças urgentes, elogia o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas (PL), diz ser considerado inocente pelo Ministério Público Federal (MPF) nas denúncias sobre o 8 de Janeiro e responde que não imporá seus valores pessoais à população de Fortaleza, caso saia vitorioso no pleito.

“Não é porque acho que minha filha não pode fazer uma coisa que vou pregar isso para os demais, que minha esposa tenha uma atitude que vou querer que todas as mulheres do Brasil tenham a mesma atitude. Não é porque tenho uma atitude que eu vá querer impor […]”.

A série terá, na próxima semana, duas veiculações: Sarto e o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece), Evandro Leitão (PT). As entrevistas publicadas até o momento, com Capitão Wagner (União), Eduardo Girão (Novo) e Técio Nunes (PSOL), assim como esta, estão disponíveis no portal O Estado, bem como no nosso canal YouTube.

O ESTADO – Deputado, o que a sua candidatura representa?
ANDRÉ FERNANDES – Uma mudança verdadeira, real. Não é uma mudança de nome ou de partido, mas de inovação, renovação. De querer trazer tecnologia. Acho que a Prefeitura de Fortaleza precisa literalmente recomeçar, do zero. Tem muita coisa para mudar. Sei que tem gente até que me chama de radical, mas algumas mudanças em Fortaleza têm que ser radicais mesmo. Então, acredito que venho com essa proposta: a mudança de que Fortaleza precisa. A renovação verdadeira.

O. E. O que é começar do zero?
AF. – A primeira coisa, quando o prefeito André Fernandes assume, é tem que fazer uma auditoria de todos os contratos da Prefeitura. A gente precisa entender porque a Prefeitura está gastando cada vez mais para fazer o mesmo serviço e continuam as mesmas empresas. Citei um exemplo prático: desde 2013, a Prefeitura criou o consórcio chamado Fortaleza Limpa, que era pertencente a três empresas – Marquise, Samaria e Maciel. Aí, esse contrato era para capinação, pintura de meio-fio, algum tipo de varrição, limpeza de bueiro. Enfim. Começou lá atrás em R$ 99 milhões. Era para ser um contrato de 12 meses. Foi prorrogado. 2014 até 2023. Entra 2024, e o prefeito decide mudar. Ao invés de contratar o consórcio Fortaleza Limpa, contrata o consórcio chamado MSM Ambiental, que mudou nome e CNPJ, mas pertencente as mesmas três empresas. O valor do consórcio, que no ano passado era de R$ 183 milhões, este ano aumenta para R$ 233 milhões para fazer o mesmo serviço na Cidade. Então, me desculpa: Fortaleza precisa de alguém que chegue, abra a caixa preta da Prefeitura, faça uma auditoria das contas, de todos os contratos, todas as OS’s para aí sim a gente começar uma Fortaleza do zero, trazendo o povo para perto, gerando emprego e renda, descentralizando recurso, como fala o governador Tarcisio, em São Paulo, o melhor governador do país a meu ver, que em tão pouco tempo está conseguindo fazer tantas entregas […].

O. E. – E você é contra as organizações sociais na saúde, por exemplo?
Claro que não. Não é que eu seja contra as organizações sociais na saúde, mas sou contra por exemplo duas OS’s de fora do Brasil, inclusive a Viva Rio, que é entupida até o talo de escândalo, administrar as nossas seis UPA’s (Unidades de Pronto Atendimento]. Aqui, temos 12 UPAs, seis administradas pela Prefeitura. Por que somente duas empresas ganham mais de R$ 500 milhões para administrar essas UPAs? Nós não temos poder e pessoas hábeis para administrar as UPAs, para gerir a nossa saúde. se a gente pegar UFC [Universidade Federal do Ceará], Uece [Universidade Estadual do Ceará], temos cursos de gestão hospitalar. Por que a gente não pega o nosso povo, gente do quintal de casa, preparadíssimos? […] Por que a gente não pega o nosso pessoal e coloca dentro das nossas secretarias, na nossa administração? Então, tem muita coisa estranha acontecendo, e aí eu volto a falar a gente precisa recomeçar Fortaleza do zero. É meio pleonasmo, mas é isso mesmo.

O. E. – Para além da questão dos contratos, o que você vê como urgente, que precisa ser enfrentado e mudado na Cidade?
A. F. – A saúde, não tenho dúvida. Estive recentemente com uma senhora que me relatou um negócio e quando postei nas redes sociais vários comentários começaram a surgir, falando exatamente a mesma coisa. Hoje, para uma pessoa conseguir fazer uma simples consulta no posto de saúde, ela espera seis, sete, oito meses. Isso quando ela consegue agendar a consulta. Tem que ir várias vezes, não tem data aberta, não diz sequer qual dia ela vai conseguir fazer o seu agendamento. Então, ela vai e volta, vai e volta. Abre-se um prazo. Se ela não for nesse período, fecha, e para abrir de novo eles nem avisam quando vão fazer. E quando consegue agendar agenda para seis meses depois. O relato dela é simples: ‘são seis meses para eu conseguir fazer uma simples consulta’. Se alguém olhar e disser que isso é normal.. Não tem como ser normal, sabe? Em São Paulo, onde Tarcísio está fazendo uma bela gestão, ele está descentralizando e contratando clínicas populares. O preço da consulta é quase equipado a uma consulta pelo SUS [Sistema Único de Saúde]. Está atendendo o povo de maneira gratuita. Para ele fazer isso, precisou primeiro quebrar grandes contratos, onde duas ou três empresas administravam todo o recurso público para gerir toda a Cidade e está contratando várias pequenas empresas para atender o povo. O custo mais ou menos o mesmo, gera mais emprego, ajuda o empregado, o empresário e o povo. As filas lá antes para fazer uma simples consulta eram também de oito, nove meses agora está sendo um mês no máximo. Claro que existem outras coisas que você consegue fazer, como telemedicina, enfim, o atendimento básico nas residências, mas a saúde em Fortaleza hoje está precária […] É prioridade. Por isso que o primeiro nome que nós escolhemos para integrar nossa equipe e eu já estou começando a formar o nosso secretariado é a doutora Mayra Pinheiro. Já anunciei nas minhas redes sociais. Uma pessoa que tem um excelente currículo […].

O. E. – Mesma pergunta que fizemos para dois pré-candidatos que entrevistamos: seu discurso é outsider. Como o senhor pensa em conseguir mudar o modelo político posto? O senhor nunca foi gestor…
A. F. – Essas mesmas perguntas foram feitas lá atrás para o Roberto Cláudio (PDT), Ciro Gomes e Luizianne Lins (PT). Eles não precisaram mostrar que tinham gestão para chegar ao poder. Chegaram e cumpriram sua gestão. Se foi exitosa ou não é a avaliação de cada um. Primeiro ponto que a gente precisa definir: para ser prefeito não precisa ter gerido nada. Pelo menos aqui em Fortaleza não. Quando se fala que o André é um pouco outsider porque tenta mudar um modelo de gestão acho que isso é até um elogio […] O modelo não está dando certo. Nosso modelo de secretariado e regionais não está dando certo. Se perguntar para o povo de Fortaleza o que melhorou depois que saímos de seis regionais para 12 e depois ainda criaram a 13ª para gerir as regionais, o que foi que melhorou? Nada. Só vê que isso cada vez mais criando secretarias para criar cabides de empregos, agrupar políticos, grupos. É triste chegar hoje em um bairro e ouvir que, para ser atendido, tem que chegar no posto de saúde e ser perguntado se tem indicação política. tem que mudar. Nisso tem que ser radical […] Eu estou muito tranquilo em saber que o PL hoje segue esse caminho de pré-candidatura de forma sozinha. Isso não me trouxe até agora nenhum ônus, dificuldade. O PL vai ter o tempo de TV para mostrar as nossas propostas. É um partido grande e tem estrutura. O próprio vereador perceberá o modelo de gestor do André Fernandes e verá que ele será tão bem avaliado que para ele será um desperdício ser oposição e estar contra o André. Vai fazer questão de estar do nosso lado, porque vamos fazer questão de entregar ao povo.

André Fernandes se candidata à Prefeitura pela primeira vez

O. E. – Seus mandatos são sempre polêmicos. Como será o seu diálogo com a oposição se for prefeito?
A. F. – O povo tem que entender que estou no Parlamento no meu segundo mandato. O papel de um deputado federal é elaborar um projeto de lei, aprovar, no caso também os projetos de lei que vêm do Executivo, e fiscalizar. O papel do André Fernandes nos dois mandatos foi cumprido com excelência. Agora, se estou colocando o meu nome para ser gestor… E aí não consigo entender quando alguém pensa ‘o André chegando lá ele não vai dialogar’. Por que não? Qual foi a vez em que eu briguei com algum Executivo de forma pessoal. Eu ir numa escola fantasma mostrar que o dinheiro não foi aplicado e que aquilo é coisa de ladrão não é falta de diálogo. Isso é fato. Eu dizer que não votaria no Lula em hipótese alguma e chamá-lo de ladrão porque ele foi condenado em todas as instâncias por mais de 14 juízes, salvo engano, isso não é falta de diálogo. Agora, se o André gestor tem que bater na porta de um governador ou na porta de um presidente para pedir ajuda para Fortaleza, é claro que vou fazer. O André Fernandes vai governar para todos.

O. E. – Mas isso já é um passo para trás…
A. F. – Eu não vejo que seja um passo para trás. A nossa luta é pelo povo. Se vai beneficiar o povo de Fortaleza eu conseguir recurso do governo federal ou estadual, é claro que vou fazer. Qual é o desmérito disso? Pelo contrário. Vejamos o governador Tarcísio de Freitas, que está fazendo um excelente trabalho. Ele aparece com Lula em entregas específicas. Qual o problema? Está ótimo o mandato dele. Por isso que eu digo que é o melhor governador que o Brasil está tendo neste momento. Ele bate nos ministérios, pede ajuda, precisa da Assembleia Legislativa, os deputados estão querendo participar da base dele, porque ele está fazendo um excelente mandato.

O. E. O governador Tarcísio é um coringa, deputado… Já foi ministro de Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB), Jair Bolsonaro (PL)…
A. F. A gente tem que entender que ele é um militar, um servidor. Em hipótese alguma, eu julgaria um servidor por ele estar prestando o seu papel. É a mesma coisa de dizer que dizer sou contra a Polícia porque a Polícia foi comandada por Camilo Santana e hoje por Elmano [de Freitas]. Eles estão fazendo o papel deles. Se eles têm prerrogativa para trabalhar ou não, aí já é outra história. Fez uma excelente gestão lá atrás? Parabéns para o Tarcísio. Fez uma excelente gestão no governo Bolsonaro. Parabéns para o Tarcísio […] Não o vejo como coringa, e sim como uma pessoa comum, que está lutando pelo povo.

O. E. Há outros candidatos que podem dividir votos com você…
A. F. – Por que dividir votos? Não vejo isso como divisão de votos.

O. E. – Mas é seu eleitorado também, porque são as pessoas que não votariam, por exemplo, nos candidatos que tem uma linha mais de centro-esquerda…
A. F. – Não vejo isso como divisão. Vejamos um cenário simples. Antes, em 2020 e 2022, o nosso grupo político, esse grupo conservador de direita, falando Mayra, Marcelo Mendes, Inspetor Alberto, Julierme Senna, Priscila Costa […] esse grupo antes apoiou outro candidato, e agora decidimos pela nossa candidatura. Por que nós estamos dividindo se o grupo está todo coeso aqui, junto?

O. E. – Mas no momento da urna é outra coisa…
A. F. – Não vejo que são votos semelhantes.

O. E. – Então, o que diferencia o senhor, por exemplo, de Capitão Wagner?
A. F. Primeiro, que nunca pedi voto pro PT. Isso é fato.

O. E. – Mas na ponta, na cabeça do eleitor?
A. F. – Eu não consigo dizer exatamente o que o eleitor vê e não vê, porque é muito pessoal entre o eleitor e o político. Mas estou aqui mostrando quem eu sou, sempre tive lado. Nunca fiquei em cima de muro algum. Se vai me trazer prejuízo ou não, a pessoa pode não gostar de mim, dizer que me detesta, mas reconhecer que pelo menos sempre fui assim e sabe quem eu sou porque desde o meu primeiro pronunciamento, lá na Assembleia Legislativa, onde o presidente da época, Fernando Santana (PT), disse ‘deputado retire sua frase’ e eu bati na mesa da tribuna e falei eu não retiro, é meu direito, e eu permaneço falando o que estou falando. O mesmo André Fernandes lá de trás continua, defendendo sempre a família, pautas cristãs. Eu sou cristão. Então, o André, a cara, a ética, a moral, os valores é esse e não vai mudar. O André que defende A e bate no lado B politicamente não vai mudar […].

O. E. – Se você vencer, vai governar para uma Cidade que, majoritariamente, não pensa como o senhor pensa. O senhor é muito apaixonado, acalorado com essas discussões conservadoras. Como o senhor vai conseguir separar, dimensionar?
A. F. – “Não é porque acho que minha filha não pode fazer uma coisa que vou pregar isso para os demais, que minha esposa tenha uma atitude que vou querer que todas as mulheres do Brasil tenham a mesma atitude. Não é porque tenho uma atitude que eu vá querer impor. Isso é muito pessoal. Sou conservador sim […] mas o que isso tem a ver com a gestão? Absolutamente nada. O que é ser um gestor? […] É simples. É administrar o que é do povo para o povo. E isso não tem absolutamente nada a ver com conservadorismo. Pelo contrário. Defendo que pautas de direita, esquerda, conservadoras, isso ou aquilo, estejam foram do debate público. Defendo 100%.

O. E. – Mas o senhor mesmo faz esse debate público…
A. F. – Eu faço, mas não gasto dinheiro para isso.

O. E. Mas faz…
A. F. Mas eu posso fazer. O André, depois que ele for eleito prefeito de Fortaleza, e eu creio muito nisso, não vai deixar de ir para a Igreja, de dizer que acha errado aborto, uso de drogas. Não vai mudar os seus valores, princípios […] eu venho de uma família patriarcal. Agora, gerir a cidade é uma coisa, e o André pessoa física, CPF, que vai administrar família, filhos, é outra.

O. E. – O jornal O Estado tem uma pauta muito importante para nós, a adoção. O que o senhor tem de projeto para essa população mais vulnerável?
A. F. – O poder público tem que chamar todas essas instituições, ONGs [Organizações Não Governamentais], organizações e dar todo um aparato. Quando a gente diz que é contra o aborto, a gente é a favor da adoção, e tem dezenas de milhares de pessoas na fila para adotar um bebê, que têm essa vontade de ser pai ou mãe. O dever do poder público não é interferir numa gravidez, e sim fazer com que famílias que querem adotar tenham esse direito. Que esses lares, casas de adoção, tenham estrutura, aparato, tecnologia e acompanhamento do poder público. Eu, durante esse um ano e seis meses de mandato destinei emendas parlamentares para diversas associações. a Associação Peter Pan é uma […] enviamos emendas parlamentares para 21 Apaes [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais] em 21 cidades do Interior do Ceará, independente de ser oposição ou base […] Se perguntar hoje qual foi o parlamentar que mais destinou emendas parlamentares nesta legislatura para Fortaleza, talvez poucas pessoas saberão: André Fernandes. Somente para o Fundo Municipal de Saúde destinei R$ 8,9 milhões. O dinheiro é do povo.

O. E. – Você foi denunciado pelo 8 de Janeiro. Acha que poderia ter tido outro comportamento?
A. F. – Eu não vou falar que não fiz nada. Vou deixar o próprio Ministério Público Federal [MPF], que foi quem abriu essa investigação, falar por mim. O MPF solicitou que fosse aberta essa investigação contra o deputado federal André Fernandes. Em 24 horas, o Supremo Tribunal Federal [ST] acatou e abriu a investigação. A investigação ocorreu, e quando voltou para o MPF o mesmo subprocurador-geral [da República] disse ‘não temos nenhuma evidência de participação ou envolvimento seja e por isso pedimos arquivamento’. É uma pena, porque já faz um ano que ele solicitou arquivamento, que a PGR [Procuradoria-Geral da República] solicitou arquivamento e até agora não foi arquivado.

O. E. – O chefe do Ministério Público Federal era Augusto Aras [aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro]…
A. F. – A Procuradoria- Geral da República determina os subprocuradores para cuidar de cada área. Denominou um sub para cuidar do 8 de Janeiro, e o mesmo que está solicitando as penas de 15, 16, 18 anos, que solicitou que abrisse o processo de investigação contra André Fernandes, foi o mesmo que solicitou arquivamento. O Aras não tem absolutamente nada a ver com isso.

O. E. – Mas ele era chefe da procuradoria à época.
A. F. Há uma separação. Se fosse nesse caso, a gente diria que todo mundo que está sendo condenado pelo 8 de Janeiro é por causa do Aras e não existe essa possibilidade. Então, os subprocuradores são escolhidos e não tem absolutamente nenhuma interferência […] Se o Aras tivesse pedido arquivamento aí seria estranho né? Mas o cara que solicitou a abertura e que também solicitou a abertura de tantos outros e que no final do processo pediu a abertura de tantos outros e pediu indiciamento para tantos outros se transformarem réus e no caso do André porque determinou que não encontrou nada e que concluiu que não tem nada a ver? Sigo absolutamente tranquilo quanto a isso.

O. E. – Você fala muito que segurança é 50% responsabilidade da Prefeitura. O que quer dizer com isso?
A. F. – Acredito que a Prefeitura pode auxiliar, juntar força com Estado e União para que problemas e crimes sejam solucionados […] Basta pegar alguns exemplos, em São José dos Campos, que está fazendo um excelente trabalho com a questão de monitoramento. Colocou câmeras em toda cidade. Com reconhecimento facial e acoplado a isso essas imagens são inseridas em um banco de dados que tem uma Inteligência Artificial que em tempo real manda essas imagens para Polícia Civil, Militar, Federal e até Interpol. Quem tiver buscando algum bandido e passar lá a câmera consegue identificar […] O povo de Fortaleza tem saudade de sentar na calçada, de andar tranquilamente na rua. Vejo que a Prefeitura pode ajudar com isso […] Existe também a Guarda Municipal. Hoje ela pode sim atuar não só na prevenção, mas também no cuidado de bens, patrimônios e serviços e também do cidadão. Não existe um patrimônio maior na Cidade que não seja o cidadão.

O. E. – O senhor usa sempre palavras pesadas ao se referir ao presidente da República, chamando-o de ladrão, descondenado, quando se a Justiça entendeu que ele não deveria responder a mais nenhum processo. Em tese, ele não deveria ser chamado de ladrão…
A. F. – Isso é uma questão de CEP. O povo diz que o Lula foi condenado, provado todas as provas de que roubou, corrupção ativa, passiva, lavagem de dinheiro, agora por uma questão de CEP disseram que o processo deveria ser julgado em um estado e foi julgado em outro e anularam-se as provas. Anulando-se as provas, descondenaram […] Eu sou defensor do direito à ampla defesa e ao contraditório, até porque eu posso ser vítima de um processo. No caso dele, não foi provada a inocência. Disseram que era para ser julgado em um lugar e foi julgado em outro, por mais que o processo tenha passado em três instâncias. Ser ladrão, descondensado e ex-presidiário não é julgamento, palavra forte são fatos.

O.E. Essa é a sua visão. Parte da sociedade não pensa como o senhor pensa. E é aí que entra a minha pergunta: essa é a postura que continuaria encampando, caso vença as eleições?
A. F. – O papel do parlamentar é elaborar projetos de lei e fiscalizar, mas o principal é parlar, falar. Eu represento 229 mil pessoas no estado do Ceará. Se eu estou representando esses eleitores e eles acham que o Lula é um ladrão, descondensado, ex-presidiário que tem que ser chamado de ladrão, que tem que ser fiscalizado todas as obras e tem que ser cobrado e que meus projetos de lei tem que ser mais rigorosos para punir bandido, estuprador, ladrão, é óbvio que vou fazer isso, o que é totalmente diferente do papel de um prefeito […] O André prefeito não vai mudar de opinião, vai continuar achando que o Lula é um ladrão e que é uma imoralidade um ex-condenado se tornar presidente da República, mas o André gestor vai saber que a Prefeitura municipal precisa de recurso e vai bater na porta do presidente, dos ministérios e vai fazer. Se ele negar por causa da minha postura, quem não está tendo postura de gestor é ele.

O. E. – Seu eleitorado vai entender essa mudança?
A. F – Claro. Óbvio que vou precisar. Na pior das hipóteses, se o descondenado, o ladrão, não quiser ajudar, não tem problema. Nós vamos fazer uma gestão exitosa […] Tarcísio já chamou o Lula de ladrão várias vezes e ele o atende. Por quê? Porque ele precisa também do eleitor do Tarcisio.

O. E. Deputado, por que você quer ser prefeito?
A. F. – Minhas duas votações, tanto em 2018, quando eu tive 109 mil votos, 54.900 foi aqui em Fortaleza. Em 2022, minha votação dobrou em todo o Estado e aqui no município de Fortaleza. Então, metade das minhas eleições eu devo à capital cearense. E é nessa cidade que eu quero criar meus filhos. Eles nascerão, crescerão e se formarão em Fortaleza. Se Deus quiser, serão empreendedores de sucesso. É o que eu quero para os meus filhos. Não sei quanto tempo eu ficarei na vida política e não adianta eu ter falado tanto, fiscalizado tanto, reclamado tanto, ter cobrado tanto, e não ter dado minha parcela de contribuição.

ESCLARECIMENTOS
*Referências ao prefeito José Sarto realizadas nesta entrevista serão respondidas pelo gestor em mais um capítulo da Série Eleições 2024, que será veiculado na próxima segunda-feira (1º), a fim de que o prefeito possa exercer seu direito de defesa.

*Em 2021, o STF entendeu por ampla maioria que a 13ª Vara de Curitiba e o Tribunal Regional Federal 4 (TRF-4) eram incompetentes para julgar os processos contra o presidente Lula (PT). A decisão se ampara no fato de o suposto crime não ter ocorrido em Curitiba, pois o à época réu trabalhava em Brasília e tinha domicílio em SP, bem como a sede da empresa investigada era no RJ. As provas foram anuladas após as constatações da Operação Spoofing, deflagrada em 2019 pela PF, que entendeu haver quebra do princípio da imparcialidade entre o juiz do caso e o MP na produção das provas. Por fim, ao contrário do que disse o deputado André Fernandes, o presidente não foi julgado por três instâncias, e sim por duas, razão pela qual o Supremo também entendeu que Lula não exauriu todas as instâncias recursais, fugindo então da caracterização de “condenado” e “descondenado”.

*André Fernandes foi condenado em 1ª instância pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) a pagar o valor de R$ 50 mil de indenização por ataques machistas à jornalista Patrícia Campos Mello. O deputado não recorreu a outra instância e, por meio de sua defesa, pediu que fosse realizada uma audiência de conciliação, agendada para o próximo dia 7 de agosto.

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